Entre o stress e o desprezo: porque é que ninguém quer ser professor em Portugal?
A OCDE diz que os sistemas educativos valem o que valem os seus professores. Vale a pena que quem decide leia o relatório até ao fim e ouça quem está na sala de aula.
Há anos que escrevo que o problema da escola pública portuguesa não é falta de diagnóstico. O Education at a Glance 2026 chega agora com a chancela da OCDE e diz, em números, o que quem dá aulas repete há muito tempo. Mas um diagnóstico só vale se levar a decisões, e por isso deixo no fim algumas propostas.
Começo
pelo respeito. Em junho escrevi que a desvalorização do
professor não é apenas salarial, é simbólica e quotidiana, e fez da autoridade
pedagógica algo que qualquer um pode contestar (A escola pública não precisa de pena. Precisa de respeito). O
relatório mede isso. Só 9% dos professores portugueses concordam que a
profissão é valorizada pela sociedade, quando a média da OCDE é 22%. Estamos
entre os países com valores mais baixos, ao lado da França (4%) e da Eslovénia
(7%). No 3.º ciclo, a satisfação com o salário é de 13% e a satisfação com as
condições de emprego é de 39%. A OCDE interpreta estes dois números como sinal
de um descontentamento mais amplo com a profissão, e acrescenta que quem se
sente valorizado pela sociedade tem bastante menos intenção de abandonar o
ensino.
Depois,
a indisciplina. Chamei-lhe o elefante na sala de aula. Segundo o
relatório, 91% dos professores portugueses dizem que têm de acalmar alunos
disruptivos com frequência ou sempre, contra 72% na média. É um dos valores
mais altos entre todos os países, e a OCDE regista que, na média, estes
episódios aumentaram desde 2018 (eram 64%). Escrevi na CNN Portugal sobre o
Estatuto do Aluno e a perda de autoridade pedagógica («A escola como tribunal»). Este
número é a medida do problema de que falava, quando nove em cada dez
professores têm de gerir comportamento com regularidade, o que se perde é tempo
de aprendizagem para todos os alunos, incluindo os que querem aprender.
Depois,
a burocracia. Em junho citei os 79% de docentes que apontam o
excesso de carga administrativa como obstáculo real. O relatório tem 79,3% para
Portugal, medido como fonte de stress «bastante» ou «muito», contra 51,7% na
média da OCDE. Só a Comunidade Flamenga da Bélgica (75,5%) fica perto. Há ainda
a correção de trabalhos, que mais de 70% dos professores portugueses indicam
como fonte de stress, quando a média é 40%. São horas retiradas ao ensino e
pagas em desgaste.
A
carreira também tem de entrar nesta conversa. Defendi
tabelas salariais que reflitam a complexidade da profissão e uma avaliação
docente que sirva para melhorar e não para sancionar. O relatório descreve uma
carreira desenhada de forma particular. Os salários efetivos dos professores
portugueses chegam a superar os dos outros diplomados, mas a média esconde o
problema, porque pesam sobretudo os professores mais velhos. O salário
estatutário inicial, em termos reais, desceu 10% ou mais entre 2015 e 2025, e o
salário relativo dos professores do 3.º ciclo caiu mais de 5 pontos
percentuais. O salário máximo é mais de 60% superior ao de quem tem 15 anos de
experiência, uma das maiores distâncias da OCDE, e quase ninguém lá chega. A
carreira promete muito no fim e dá pouco durante o percurso. É por isso que as
quotas de acesso a escalões pesam tanto, e foi por isso que saudei o
compromisso de as eliminar.
O resultado está à vista. Em Portugal, só 6% dos professores do básico e
secundário têm menos de 35 anos, contra 22% na média da OCDE. Já 37% têm 55
anos ou mais (a média é 23%), e entre os professores do secundário a proporção
é 38%, contra 22% entre os trabalhadores com mestrado. Portugal aparece no
relatório entre os países onde o envelhecimento avançou mais depressa. Há ainda
a precariedade, 67% de emprego permanente no 3.º ciclo, quando a média é 81%, e
21% dos professores com contratos de um ano letivo ou menos. A OCDE avisa que
períodos longos nesta condição atrasam a estabilização da carreira e
enfraquecem a ligação à escola. Quem prepara uma geração de professores para
este caminho não deve surpreender-se com a ausência de jovens na profissão, nem
com o vazio que as reformas dos próximos anos vão deixar.
E os professores? No artigo sobre o PISA (O PISA 2025 e vinte anos de política educativa em Portugal) mostrei
que, segundo os próprios alunos, os professores continuam a fazer mais do que
os colegas da OCDE, e que eles «não são o elo que falhou». O relatório aponta
no mesmo sentido, 73% dos professores da OCDE fizeram formação no último ano, e
em Portugal a diferença face a outros diplomados é de 20 pontos percentuais,
uma das maiores. Fazem tudo isto a trabalhar sob stress, com pouco
reconhecimento e pouca margem para decidir.
Sobre essa margem. Em abril defendi que a autonomia real devia passar do
Ministério para quem está nas escolas, com contratos claros e escrutínio
público (Da escola do Estado à escola dos Professores). O
relatório não mede a autonomia escolar portuguesa, mas inclui a autonomia
profissional, a liderança de apoio e o reconhecimento público entre os fatores
que tornam a profissão atrativa, para além do salário e do horário. Os 9% e os
13% mostram o que acontece quando faltam.
O que fazer com isto? Os números portugueses apontam, quase todos, para o
mesmo lado, autoridade, respeito, carga administrativa, estabilidade e
carreira. Dizem-me que isto custa dinheiro. Custa, mas pode ser feito por fases
e dirigido a quem mais falta faz. Proponho cinco medidas,
com o salário em primeiro lugar:
·
Subir o salário de entrada por fases. Recuperar, ao longo de três a quatro anos, a perda real registada
desde 2015, começando pelos primeiros escalões. É aí que está o problema e onde
o custo é menor, porque são poucos os professores abrangidos.
·
Encurtar o caminho até ao topo. Fim das quotas e escalões intermédios com progressão regular, para
que o salário cresça de forma visível na primeira metade da carreira e não
apenas no fim. Se o topo está 60% acima de quem tem 15 anos de experiência, é
essa distância que tem de ser reduzida.
·
Pagar mais onde falta mais. Suplementos de fixação em disciplinas carenciadas e em zonas onde a
habitação torna inviável aceitar uma colocação, em vez de aumentos iguais para
todos, o que dá mais resultado por cada euro gasto.
·
Estabilidade e menos papel. Limite à sucessão de contratos anuais, com vinculação ao fim de um
período claro, e fim dos pedidos duplicados de dados às escolas, com um técnico
administrativo nos agrupamentos onde a carga burocrática é maior.
·
Mentoria entre gerações. Professores perto da reforma reduzem parte da componente letiva para
acompanhar colegas em início de carreira, que por sua vez têm um primeiro ano
com menos horas letivas.
Junto
duas medidas que quase nada custam. A primeira é um relatório anual público
sobre a profissão docente, com idade média, contratos
precários e valorização percebida, para que o país acompanhe o problema em vez
de o redescobrir de cada vez que sai um relatório internacional. A segunda é um mecanismo permanente de auscultação de quem está no
terreno. Um painel de professores, rotativo e escolhido por
sorteio entre as escolas, que seja obrigatoriamente ouvido, com parecer
público, antes de qualquer alteração a estatutos, currículos, regras de
avaliação ou cargas administrativas. Quando o Ministério decide contra esse
parecer, tem de explicar por escrito porquê. Hoje, demasiadas decisões que
mudam a vida das escolas são tomadas por quem nunca teve de as aplicar numa
turma de trinta alunos, nunca pagou o preço de um erro e, quando a medida
falha, passa à seguinte sem prestar contas. Quem decide sem a pele no jogo
raramente aprende com as consequências, porque as consequências ficam sempre do
outro lado da porta da sala de aula.
A OCDE diz que os sistemas educativos valem o que valem os seus
professores. Vale a pena que quem decide leia o relatório até ao fim e ouça
quem está na sala de aula.
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