sábado, 3 de outubro de 2026

Há falta de professores... Porque será?

 



Ah, os professores.
Essa classe privilegiadíssima que trabalha meia dúzia de horas por semana, tem férias a perder de vista, chega a casa sem levar trabalho nenhum, nunca passa noites a preparar aulas, nunca corrige testes, nunca preenche plataformas, nunca participa em reuniões e, sobretudo, nunca se cansa.
É praticamente um emprego de sonho.
Tão bom, tão fácil e tão bem pago que… faltam professores.
Ora aqui está um pequeno detalhe que talvez mereça dois segundos de reflexão.
Se ser professor é assim tão fantástico, onde estão as filas de candidatos?
Se é assim tão cómodo, porque é que tanta gente abandona a profissão?
Se é assim tão vantajoso, porque é que há escolas desesperadas por professores?
Se é uma profissão onde “só se trabalha de manhã” e “se está sempre de férias”, porque é que não temos milhares de pessoas a lutar por essas magníficas vagas?
Ah, já sei.
É porque toda a gente quer ser professor…
desde que não tenha de ser professor.
É muito mais confortável estar no sofá a explicar aos professores como devem trabalhar.
Aliás, Portugal tem milhões de especialistas em Educação.
Curiosamente, quase nenhum está dentro de uma sala de aula.
E depois temos o fascinante fenómeno das greves.
“É sempre à sexta-feira!”
“Agora é à segunda-feira!”
“Assim também eu fazia greve!”
Claro que sim.
Faça.
Ninguém o impede.
Mas há uma coisa engraçada: uma greve serve para causar impacto.
Se os professores fizessem greve às 3 da manhã de um domingo, com toda a gente a dormir descansadinha, talvez fossem muito mais simpáticos.
“Que maravilha! Os professores fizeram greve e eu nem dei por isso!”
Excelente.
É precisamente esse o objetivo de uma greve, não é?
Fazer uma greve tão discreta que ninguém perceba que existe.
Talvez, para agradar ao público, os professores pudessem entregar previamente um formulário:
“Exmo. Sr. Cidadão, vimos por este meio solicitar autorização para fazer greve. Indique, por favor, três dias da semana que lhe sejam convenientes, excluindo sextas, segundas, feriados, vésperas de feriado, dias de chuva e qualquer outro dia suscetível de lhe causar incómodo.”
Porque, aparentemente, a greve só é legítima quando não incomoda ninguém.
E depois há os pais.
Ah, os pais.
Alguns descobrem a existência das condições da carreira docente precisamente no dia em que recebem uma mensagem a dizer:
“A escola estará encerrada devido à greve.”
Nesse momento, nasce uma súbita paixão pela Educação.
“E os professores? E as crianças?”
Não.
Vamos ser honestos.
A pergunta é:
“E agora, onde é que eu ponho o meu filho?”
Porque, aparentemente, a escola deixou de ser um estabelecimento de ensino e passou a ser uma espécie de parque infantil público com serviço gratuito de babysitting.
O professor que se lixe.
A carreira que se lixe.
As condições de trabalho que se lixe.
A falta de professores que se lixe.
Mas, por amor de Deus, não me fechem a escola porque eu tenho de trabalhar!
É aí que a preocupação com a Educação atinge níveis comoventes.
E depois temos crianças de 12, 13 ou 14 anos.
Seres humanos perfeitamente capazes de dominar um smartphone melhor do que os próprios pais, criar contas nas redes sociais, fazer compras dentro de jogos, ver vídeos durante horas e explicar detalhadamente a um adulto porque é que determinada regra é “injusta”.
Mas deixá-los sozinhos duas horas em casa?
Impossível.
Nem um pão com manteiga conseguem fazer.
E atenção: não estou a dizer que todas as crianças sejam assim.
Estou apenas a dizer que talvez fosse interessante começarmos a educá-las também para a vida, em vez de esperarmos que a escola resolva absolutamente tudo.
Agora comparemos com outra profissão.
Imaginemos que o médico faz greve.
Alguém diz:
“Este médico está sempre a fazer greve. Aposto que escolheu terça-feira porque queria prolongar o fim de semana!”
Não.
Ninguém se atreve.
O médico prescreve um tratamento.
O cidadão comum não diz:
“Olhe, eu não sou médico, mas estive a ver uns vídeos no YouTube e acho que devia prescrever outra coisa.”
Não.
Porque há uma coisa chamada respeito pela profissão e pelo conhecimento especializado.
Com os professores, aparentemente, é diferente.
Toda a gente sabe ensinar.
Toda a gente sabe avaliar.
Toda a gente sabe gerir uma turma.
Toda a gente sabe como deve funcionar a escola.
Toda a gente sabe quantas horas um professor deve trabalhar.
Toda a gente sabe quantas férias um professor “tem”.
E toda a gente sabe, naturalmente, que “antigamente é que era bom”.
É extraordinário.
Portugal tem milhões de treinadores de bancada e, aparentemente, também milhões de ministros da Educação.
Mas vamos então fazer uma coisa revolucionária.
Pensar!!!!
Sim, pensem.
Só um bocadinho.
Façam esse esforço.
Se ser professor é tão bom…
SEJAM PROFESSORES.
A sério.
Não é ironia.
CONCORRAM.
Há falta de professores.
Há vagas.
Há escolas.
Há alunos.
Há turmas.
Há tudo.
Venham aproveitar essa profissão maravilhosa que vocês descrevem com tanto entusiasmo.
Venham ganhar os ordenados milionários.
Venham gozar as férias intermináveis.
Venham trabalhar meia dúzia de horas.
Venham deixar todo o trabalho à porta da escola.
Venham experimentar a tranquilidade de uma profissão sem stress.
Venham.
Estamos à vossa espera.
E depois, quando estiverem numa sala com 25 ou 30 alunos, quando tiverem de preparar aulas, corrigir trabalhos, avaliar, preencher papelada, responder a emails, participar em reuniões, lidar com problemas disciplinares, adaptar estratégias, acompanhar alunos com necessidades específicas e ainda ouvir que “os professores não fazem nada”…
…talvez percebam qualquer coisinha.
Ou talvez não.
Porque é muito fácil dizer:
“Os professores têm muitas férias.”
É muito mais difícil perguntar:
“Porque é que há falta de professores?”
É muito fácil dizer:
“Os professores fazem greve à sexta-feira.”
É muito mais difícil perguntar:
“Porque é que uma classe inteira sente necessidade de parar para ser ouvida?”
É muito fácil dizer:
“Eu também queria aquele horário.”
É muito mais difícil dizer:
“Então vou concorrer.”
É muito fácil exigir professores motivados, disponíveis, competentes e dedicados.
É muito mais difícil valorizar as condições necessárias para que essas pessoas permaneçam na profissão.
E talvez seja esse o pequeno pormenor que alguns ainda não perceberam:
Uma profissão não fica boa porque vocês repetem que é boa.
E se é tão boa como dizem…
o que estão à espera?
As vagas estão aí.
As escolas estão à espera.
Os alunos estão à espera.
Estudem. Concorram. Sejam professores.
E depois venham contar-nos como foi.
Mas tragam um pão com manteiga.
Para o intervalo.
Porque, pelos vistos, há adultos que também precisam de aprender a desenrascar-se.
Estudassem!

SPEAKER´S CORNER     3/10/2026



Entre o stress e o desprezo: porque é que ninguém quer ser professor em Portugal?

A OCDE diz que os sistemas educativos valem o que valem os seus professores. Vale a pena que quem decide leia o relatório até ao fim e ouça quem está na sala de aula.

Há anos que escrevo que o problema da escola pública portuguesa não é falta de diagnóstico. O Education at a Glance 2026 chega agora com a chancela da OCDE e diz, em números, o que quem dá aulas repete há muito tempo. Mas um diagnóstico só vale se levar a decisões, e por isso deixo no fim algumas propostas.

Começo pelo respeito. Em junho escrevi que a desvalorização do professor não é apenas salarial, é simbólica e quotidiana, e fez da autoridade pedagógica algo que qualquer um pode contestar (A escola pública não precisa de pena. Precisa de respeito). O relatório mede isso. Só 9% dos professores portugueses concordam que a profissão é valorizada pela sociedade, quando a média da OCDE é 22%. Estamos entre os países com valores mais baixos, ao lado da França (4%) e da Eslovénia (7%). No 3.º ciclo, a satisfação com o salário é de 13% e a satisfação com as condições de emprego é de 39%. A OCDE interpreta estes dois números como sinal de um descontentamento mais amplo com a profissão, e acrescenta que quem se sente valorizado pela sociedade tem bastante menos intenção de abandonar o ensino.

Depois, a indisciplina. Chamei-lhe o elefante na sala de aula. Segundo o relatório, 91% dos professores portugueses dizem que têm de acalmar alunos disruptivos com frequência ou sempre, contra 72% na média. É um dos valores mais altos entre todos os países, e a OCDE regista que, na média, estes episódios aumentaram desde 2018 (eram 64%). Escrevi na CNN Portugal sobre o Estatuto do Aluno e a perda de autoridade pedagógica («A escola como tribunal»). Este número é a medida do problema de que falava, quando nove em cada dez professores têm de gerir comportamento com regularidade, o que se perde é tempo de aprendizagem para todos os alunos, incluindo os que querem aprender.

Depois, a burocracia. Em junho citei os 79% de docentes que apontam o excesso de carga administrativa como obstáculo real. O relatório tem 79,3% para Portugal, medido como fonte de stress «bastante» ou «muito», contra 51,7% na média da OCDE. Só a Comunidade Flamenga da Bélgica (75,5%) fica perto. Há ainda a correção de trabalhos, que mais de 70% dos professores portugueses indicam como fonte de stress, quando a média é 40%. São horas retiradas ao ensino e pagas em desgaste.

A carreira também tem de entrar nesta conversa. Defendi tabelas salariais que reflitam a complexidade da profissão e uma avaliação docente que sirva para melhorar e não para sancionar. O relatório descreve uma carreira desenhada de forma particular. Os salários efetivos dos professores portugueses chegam a superar os dos outros diplomados, mas a média esconde o problema, porque pesam sobretudo os professores mais velhos. O salário estatutário inicial, em termos reais, desceu 10% ou mais entre 2015 e 2025, e o salário relativo dos professores do 3.º ciclo caiu mais de 5 pontos percentuais. O salário máximo é mais de 60% superior ao de quem tem 15 anos de experiência, uma das maiores distâncias da OCDE, e quase ninguém lá chega. A carreira promete muito no fim e dá pouco durante o percurso. É por isso que as quotas de acesso a escalões pesam tanto, e foi por isso que saudei o compromisso de as eliminar.

O resultado está à vista. Em Portugal, só 6% dos professores do básico e secundário têm menos de 35 anos, contra 22% na média da OCDE. Já 37% têm 55 anos ou mais (a média é 23%), e entre os professores do secundário a proporção é 38%, contra 22% entre os trabalhadores com mestrado. Portugal aparece no relatório entre os países onde o envelhecimento avançou mais depressa. Há ainda a precariedade, 67% de emprego permanente no 3.º ciclo, quando a média é 81%, e 21% dos professores com contratos de um ano letivo ou menos. A OCDE avisa que períodos longos nesta condição atrasam a estabilização da carreira e enfraquecem a ligação à escola. Quem prepara uma geração de professores para este caminho não deve surpreender-se com a ausência de jovens na profissão, nem com o vazio que as reformas dos próximos anos vão deixar.

E os professores? No artigo sobre o PISA (O PISA 2025 e vinte anos de política educativa em Portugal) mostrei que, segundo os próprios alunos, os professores continuam a fazer mais do que os colegas da OCDE, e que eles «não são o elo que falhou». O relatório aponta no mesmo sentido, 73% dos professores da OCDE fizeram formação no último ano, e em Portugal a diferença face a outros diplomados é de 20 pontos percentuais, uma das maiores. Fazem tudo isto a trabalhar sob stress, com pouco reconhecimento e pouca margem para decidir.

Sobre essa margem. Em abril defendi que a autonomia real devia passar do Ministério para quem está nas escolas, com contratos claros e escrutínio público (Da escola do Estado à escola dos Professores). O relatório não mede a autonomia escolar portuguesa, mas inclui a autonomia profissional, a liderança de apoio e o reconhecimento público entre os fatores que tornam a profissão atrativa, para além do salário e do horário. Os 9% e os 13% mostram o que acontece quando faltam.

O que fazer com isto? Os números portugueses apontam, quase todos, para o mesmo lado, autoridade, respeito, carga administrativa, estabilidade e carreira. Dizem-me que isto custa dinheiro. Custa, mas pode ser feito por fases e dirigido a quem mais falta faz. Proponho cinco medidas, com o salário em primeiro lugar:

·         Subir o salário de entrada por fases. Recuperar, ao longo de três a quatro anos, a perda real registada desde 2015, começando pelos primeiros escalões. É aí que está o problema e onde o custo é menor, porque são poucos os professores abrangidos.

·         Encurtar o caminho até ao topo. Fim das quotas e escalões intermédios com progressão regular, para que o salário cresça de forma visível na primeira metade da carreira e não apenas no fim. Se o topo está 60% acima de quem tem 15 anos de experiência, é essa distância que tem de ser reduzida.

·         Pagar mais onde falta mais. Suplementos de fixação em disciplinas carenciadas e em zonas onde a habitação torna inviável aceitar uma colocação, em vez de aumentos iguais para todos, o que dá mais resultado por cada euro gasto.

·         Estabilidade e menos papel. Limite à sucessão de contratos anuais, com vinculação ao fim de um período claro, e fim dos pedidos duplicados de dados às escolas, com um técnico administrativo nos agrupamentos onde a carga burocrática é maior.

·         Mentoria entre gerações. Professores perto da reforma reduzem parte da componente letiva para acompanhar colegas em início de carreira, que por sua vez têm um primeiro ano com menos horas letivas.

Junto duas medidas que quase nada custam. A primeira é um relatório anual público sobre a profissão docente, com idade média, contratos precários e valorização percebida, para que o país acompanhe o problema em vez de o redescobrir de cada vez que sai um relatório internacional. A segunda é um mecanismo permanente de auscultação de quem está no terreno. Um painel de professores, rotativo e escolhido por sorteio entre as escolas, que seja obrigatoriamente ouvido, com parecer público, antes de qualquer alteração a estatutos, currículos, regras de avaliação ou cargas administrativas. Quando o Ministério decide contra esse parecer, tem de explicar por escrito porquê. Hoje, demasiadas decisões que mudam a vida das escolas são tomadas por quem nunca teve de as aplicar numa turma de trinta alunos, nunca pagou o preço de um erro e, quando a medida falha, passa à seguinte sem prestar contas. Quem decide sem a pele no jogo raramente aprende com as consequências, porque as consequências ficam sempre do outro lado da porta da sala de aula.

A OCDE diz que os sistemas educativos valem o que valem os seus professores. Vale a pena que quem decide leia o relatório até ao fim e ouça quem está na sala de aula.

observador.pt    9/10/2026

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