Bacia de retenção para ribeiras que desaguam no Sado e em tempos inundavam Setúbal está a ter o primeiro grande teste com o comboio de tempestades. Até agora, parecia apenas um parque na cidade.
A jusante de Alcácer do Sal, fustigada por cheias nos últimos dias devido ao caudal do Sado, está Setúbal, a foz deste rio que corre de sul para norte. Com o mar à porta, a Setúbal chegam também as águas de ribeiras, num cocktail imersivo quando se combinam fortes chuvas e marés de feição para enchentes.
Para mitigar esses efeitos foi desenvolvido um projeto com dupla bacia de retenção de águas, solução conceptual que vemos também no plano de drenagem em construção na cidade de Lisboa. No caso de Setúbal, o terreno de 19 hectares está junto da ribeira da Figueira – já na capital, o projeto, com um custo de construção quase 200 vezes superior, contempla bacias de retenção na Ameixoeira, Alto da Ajuda, Parque Eduardo VII e no Parque Oeste, Campo Grande, Quinta da Granja, Vale Fundão e Vale de Chelas.
Paulo Maia, setubalense que assumiu o pelouro da Proteção Civil no atual mandato de Maria das Dores Meira, viu a baixa da cidade inundar-se por várias vezes ao longo da sua vida. Ao ECO/Local Online, explica que a obra na várzea da cidade tem capacidade para reter 240 mil metros cúbicos de água, o equivalente a cerca de 100 piscinas olímpicas.
Além de bacia de retenção, o terreno serviu para formar uma grande zona verde, o Parque da Várzea, que até às chuvas das últimas semanas, não denunciava a sua capacidade de retenção de águas. Contudo, destaca o vereador, a faceta de parque urbano é apenas “uma segunda valência desta bacia de retenção. Não podemos chamar parque urbano da Várzea, que tem sido o seu nome último, mas sim uma bacia de retenção de águas”, nota o responsável do pelouro da Proteção Civil em Setúbal.
“Neste episódio extremo, tivemos precipitação na ordem dos 22 a 25 mm de chuva, o que é muito, mesmo. A bacia nem atingiu ainda os 50 por cento. Podíamos ter tido maior preenchimento da sua capacidade se o rio não tivesse dado uma ajuda. A chuva não foi muito intensa nos picos de preia-mar. Ainda tínhamos capacidade para ter 50 e muitos por cento de capacidade“, destaca o responsável pela Proteção Civil municipal.
O parque regulariza o caudal das ribeiras do Livramento e da Figueira, com leitos de 8,54 e 4,68 quilómetros, respetivamente. Estas linhas de água fazem chegar à cidade caudais de 52 metros cúbicos por segundo (m3/s) e 33 m3/s, respetivamente, com proveniência nas serras do Louro e de São Luís.
Quando as marés do Atlântico e a pressão do Sado permitem a injeção de mais água, a bacia despeja-a por canais próprios, por intermédio de válvulas de pressão. Além do retorno ao leito original, há ainda a absorção pelo terreno do próprio parque.
A obra teve a sua génese há quase uma década, quando o Executivo de Maria das Dores Meira – que antes de ser eleita a 18 de outubro enquanto independente apoiada por PSD e CDS, tinha sido presidente pela CDU entre 2006 e 2021 –, candidatou a Câmara a apoios comunitários no programa PO SEUR para regularização de 550 metros da ribeira da Figueira, construção de duas bacias de amortecimento, uma em cada margem desta (com 229 mil e 11 mil metros cúbicos), e também para colocação de valas de drenagem para permitir evacuar a água acumulada nas bacias.
O custo total do investimento foi de 1,28 milhões de euros, dos quais 321 mil couberam ao município, e o prazo de construção foi de 15 meses.
Conforme se lê na notificação de aprovação da candidatura enviada à autarquia pela estrutura do programa comunitário, “a cidade de Setúbal, devido à sua posição geográfica, planície de cheia para onde convergem várias ribeiras” com “elevados declives”, a que se soma “fraca capacidade de retenção de água dos solos”, está sujeita a cheias em períodos de chuva intensa.
Com o comboio de tempestades que trouxe níveis de precipitação incomuns, a autarquia vê o sistema de bacias responder, pela primeira vez, nos seus sete anos de existência, a caudais anormalmente elevados nas ribeiras. Daí, tem estado a exaltar publicamente a decisão tomada em 2018 por um Executivo da atual presidente.
“Esta obra não teve a importância que lhe deveria ter sido dada, porque nunca tinha sido testada desta maneira. Agora sim, verifica-se a importância da mesma pelo teste que estamos a ter”, diz o vereador. “Isto veio dar à cidade uma proteção para todos estes eventos climáticos, que cada vez vão estando piores“.
Com um aviso do IPMA para forte agitação marítima e chuva persistente a potenciar o perigo de cheias no distrito de Setúbal ao longo desta semana, o parque da Várzea terá um segundo momento para brilhar como exemplo – ou ceder.
eco.sapo.pt/2026/02/10