segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Meloni anuncia lei para limitar número de estrangeiros por sala de aula em Itália

 O novo projeto de lei introduz a proibição da burca e do hijab nas instituições de ensino e exige que os pais de alunos estrangeiros com graves problemas de integração escolar aprendam italiano



A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, anunciou este domingo que irá apresentar uma medida que limita por lei o número máximo de alunos estrangeiros por sala de aula e introduz a proibição da burca e do hijab nas instituições de ensino.

 

Segundo a primeira-ministra, que interveio na reunião da juventude do seu partido, Irmãos de Itália, o projeto de lei será apresentado no próximo Conselho de Ministros e exige, ainda, que os pais de alunos estrangeiros com graves problemas de integração escolar aprendam italiano.

 

"Vai-se à escola com o rosto descoberto e, em Itália, ninguém, em nome de uma tradição real ou suposta, pode decidir que uma jovem deve esconder-se. A igualdade entre homens e mulheres é inegociável", afirmou Meloni, acrescentando que “não é possível que, numa sala de aula italiana, as crianças italianas se sintam marginalizadas por serem minoria. Isso não pode acontecer.”

 

Meloni anunciou, ainda, que os estabelecimentos que oferecem formação profissional passarão a chamar-se "institutos", para que "fique claro, desde os seus nomes, que são escolas de igual valor e que as pessoas que as frequentam têm o mesmo valor".

 

No que diz respeito à educação, criticou a prática das notas de aprovação generalizadas, pois "a escola para todos deve ser capaz de reconhecer tanto as conquistas como as fraquezas, deve oferecer motivação a quem está à frente e apoio a quem tem dificuldades", mas, "por outro lado, ao pretender dar a todos uma nota de aprovação, subestima-se o mérito e ocultam-se as lacunas, prejudicando tanto quem precisa de motivação como quem precisa de apoio".

 

"Por conseguinte, o primeiro dever da escola é avaliar a criança, ensinar-lhe que o julgamento existe, que os erros são úteis para o crescimento e que a educação e o respeito se baseiam nas regras e não na sua negação", sublinhou a primeira-ministra.

 

Meloni afirmou, ainda, que o seu Governo elevou "o financiamento ordinário para as universidades ao seu nível mais alto de sempre, com um fundo que ascende a 9400 milhões de euros, o que representa mais 25% do que em 2019".


https://expresso.pt/italia/2026-09-20

sábado, 19 de setembro de 2026

Assina a Petição Pública pelo não abate de Javalis da Arrábida

https://peticaopublica.com/mobile/psigned.aspx?pi=PT132873&n=Jos%c3%a9#google_vignette 


(Nos termos da Lei n.º 43/90, de 10 de agosto - Lei do Direito de Petição)
Ao: Presidente da Assembleia da República e Deputados das Grupos Parlamentares
Assunto: Suspensão do abate de javalis e adoção de um plano nacional de gestão ética, controlo populacional não letal e proteção de habitats (Sus scrofa).
Texto da Petição:
Os cidadãos infra-assinados vêm, ao abrigo do direito constitucional de petição, solicitar à Assembleia da República a intervenção urgente no modelo de gestão da população de javalis em Portugal, promovendo a substituição do abate sistemático por métodos éticos, científicos e sustentáveis.
Reconhecemos os desafios colocados pelo aumento populacional da espécie, designadamente os prejuízos na agricultura e a segurança rodoviária. Contudo, a evidência científica demonstra que a caça e o abate indiscriminado desestruturam as varas de javalis, estimulando a maturidade sexual precoce das fêmeas e resultando, paradoxalmente, no aumento da taxa de reprodução.
A vida animal e a integridade dos ecossistemas exigem uma abordagem moderna e compassiva. Assim, os peticionários solicitam que a Assembleia da República recomende ao Governo e aos órgãos competentes as seguintes medidas:
Controlo Reprodutivo Não Letal: Aplicação de programas de imunocastração (vacinação contracetiva) e distribuição de engodos contracetivos em zonas de elevada densidade populacional.
Reforço de Alimentação em Habitat Natural: Criação de pontos fixos de alimentação no interior de zonas florestais e de montanha para fixar as populações longe de explorações agrícolas e zonas urbanas.
Rede de Santuários e Zonas Protegidas: Criação e apoio a parques de acolhimento e reservas vedadas para relocalização de espécimes capturados em áreas de conflito e permitindo zonas de observação e turismo.
Infraestruturas de Proteção e Prevenção: Apoio financeiro público a agricultores para instalação de vedações elétricas e implementação de sinalização dissuasora (luminosa/sonora) e corredores ecológicos nas estradas de maior risco.
Proibição do Abate Continuado: Suspensão das batidas e montarias como método primário de controlo populacional, condicionando qualquer intervenção letal à prova da ineficácia absoluta das alternativas éticas.
Pelo exposto, solicitam aos Senhores Deputados a apreciação da presente petição, o seu debate em Plenário e a respetiva conversão em iniciativa legislativa que garanta uma coexistência ética e segura entre a fauna selvagem e as populações humanas.


Eles não invadiram a Arrábida. Eles foram levados para lá por caçadores e agora querem pagar a caçadores para os matarem? Isto dá algum sentido..?
Nas últimas semanas, os vídeos de javalis a passear nas praias da Arrábida e nas ruas de Setúbal multiplicaram-se. A resposta imediata do poder público e das vozes habituais? Chamam-lhes "praga", decretam o pânico e anunciam abate, caça e incentivos monetários para acabar com um “problema” que foi criado por caçadores!
Mas precisamos de contar a história toda, a história que a memória conveniente da política insiste em apagar.

De onde vieram os javalis da Arrábida, sabem?
O javali esteve extinto no Parque Natural da Arrábida durante décadas. Eles não "invadiram" a serra por magia.
Foram reintroduzidos por mão humana, por volta de 2005, e foram soltos em herdades e mantidos com ceiradeiras e alimentação artificial para servir um único propósito: a caça desportiva. Criou-se uma população num ecossistema fechado e sem predadores naturais para entretenimento humano.

Quando a situação fugiu ao controlo, impulsionada pela própria caça, que destrói as famílias, mata as fêmeas matriarcas e faz as fêmeas jovens reproduzirem-se mais cedo por sobrevivência, o ser humano olhou para as consequências dos seus próprios atos e declarou o javali como "o inimigo".

Por que razão eles descem à praia e à cidade?
Os javalis não estão a "atacar". Estão desidratados, com fome e em fuga.

A seca, a pressão humana na serra e a escassez de recursos empurram-nos para baixo. Nas praias e nas cidades encontram o lixo que nós deixamos e a água que lhes falta. São seres sencientes, que sentem medo, dor e proteção pela sua prole, a tentar apenas sobreviver num ecossistema que fomos nós que desequilibramos.

Matar não resolve nada. A ciência já provou que o abate gera reprodução compensatória: quanto mais se caça, mais a população dispara para tentar repor as perdas. Matar é apenas a saída fácil, brutal e lucrativa para quem vive da caça.
Proteger a Arrábida e os javalis exige empatia e ética!
Métodos Não Letais: Aplicação de imunocontracepção (vacinas contraceptivas que controlam a natalidade sem dor nem sangue).

Fim do Lixo e da Alimentação: Gestão rigorosa dos resíduos nas praias e cidades para que os animais não associem os humanos a comida.
Proteção e Dissuasão: Vedações elétricas e repelentes naturais nas zonas de transição.
Proibição Absoluta de Ceiradeiras: Acabar com a alimentação artificial colocada por caçadores que inflaciona a população no inverno.

Os javalis não têm culpa de ter sido usados como alvos de entretenimento. Não têm culpa de ter sede. E não têm culpa da ganância humana.
A Arrábida é a casa deles porque nós os pusemos lá. A única resposta justa e civilizada não é a morte, é a coexistência ética, o controlo científico e a proteção de quem apenas está a tentar sobreviver.
Morte não é gestão de fauna. É cobardia!


Save & Care    19/9/2026



https://www.facebook.com/reel/1951169602224058


Se existem formas éticas de controlo populacional dos javalis, porque é que escolhemos sempre matá-los?
Imaginem se o governo decretasse que o mesmo fosse feito aos cães e gatos de rua, animais que não têm culpa de ter nascido e que estão simplesmente a tentar sobreviver. E se ainda pagasse a caçadores para os abater em plena via pública?
Os javalis habitam a região da Serra da Arrábida há milhares de anos. A presença da espécie na Arrábida e na Península Ibérica recua à Pré-História, como comprovam os achados arqueológicos e paleontológicos em várias grutas e jazidas da região, onde foram identificados vestígios ósseos de javalis consumidos por povoamentos humanos do Paleolítico e do Neolítico.
No século XX, foram praticamente extintos devido à caça excessiva e à degradação do seu habitat, tendo sido reintroduzidos por volta de 2005 por caçadores, para servir o interesse da caça desportiva. Não temos o direito de os caçar até à extinção novamente só porque nos achamos donos da natureza! Os humanos também existem em excesso neste planeta e são o animal mais destrutivo que alguma vez existiu, muito mais do que qualquer javali ou animal selvagem. No entanto, o abate nunca seria uma solução aceite para nós.
Matar não resolve nada. A ciência já provou que o abate gera reprodução compensatória: quanto mais se caça, mais a população dispara para tentar repor as perdas. Matar é apenas a saída fácil, brutal e lucrativa para quem vive da caça.
Proteger a Arrábida e os javalis exige empatia e ética através de métodos não letais: Imunocontraceção: Aplicação de vacinas contraceptivas que controlam a natalidade sem dor nem sangue.
Gestão de resíduos: Fim do acesso ao lixo e à alimentação, garantindo uma gestão rigorosa dos resíduos nas praias e povoações para que os animais não associem os humanos a comida fácil.
Proteção e dissuasão: Instalação de vedações elétricas e repelentes naturais nas zonas de transição. Fim da alimentação artificial colocada por caçadores para inflacionar artificialmente a população no inverno.
Os javalis não têm culpa de ter sido usados como alvos de entretenimento. Não têm culpa de ter sede e não têm culpa da ganância humana. A Arrábida é a casa deles. A única resposta justa e civilizada não é a morte: é a coexistência ética, o controlo científico e a proteção de quem apenas está a tentar sobreviver.
Morte não é gestão de fauna. É cobardia! Exige-se mais compaixão e empatia por quem não se consegue defender da nossa maldade antropocêntrica 💔

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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Presidente do hospital Amadora-Sintra: "Há pessoas que chegam ao aeroporto e vêm para aqui" (Turismo de Saúde)

A responsável explica que 40% dos utentes da área da obstetrícia são estrangeiros e admite que o turismo de saúde "é um problema". Sandra Cavaca tem um plano para atacar o inverno.



O hospital Amadora-Sintra voltou a estar debaixo dos holofotes nas últimas semanas devido aos elevados tempos de espera dos doentes que se deslocaram às urgências de uma das unidades de saúde mais pressionadas em todo o país. Os tempos de espera estiveram a rondar as 24 horas, mas o Observador contava recentemente a história de “João”, um doente de 70 anos que passou 36 horas naquele serviço desde o momento em que ali chegou, ao início da tarde de sábado, transportado pelos bombeiros, até ter recebido a alta clínica, já na madrugada de segunda-feira.

 

Em entrevista ao Observador, a presidente do Conselho de Administração, que assumiu funções há cerca de seis meses, reconhece que os atuais tempos de espera “não são aceitáveis”. Sandra Cavaca explica que o hospital foi perdendo clínicos das urgências e que não tem sido possível repor esses profissionais. E estuda, neste momento, a possibilidade de criar um Centro de Responsabilidade Integrada — no fundo, um modelo de funcionamento com incentivos financeiros para os profissionais de saúde que permita colmatar os baixos níveis de atratividade que têm dificultado o reforço — ou, sequer, a reposição — de recursos humanos.

 

Sandra Cavaca tem em mente outras soluções para reduzir a pressão sobre o Amadora-Sintra: um Centro de Atendimento Clínico na Amadora, com consultas marcadas para o próprio dia, a abrir em outubro; gabinetes de teleconsulta para utentes sem médico; e o reforço, a curto prazo, da urgência do hospital de Sintra, em Algueirão Mem-Martins.

 

Mas, ao mesmo tempo, a presidente do Conselho de Administração do Amadora-Sintra não esconde que há fatores externos que aumentam ainda mais a pressão sobre o hospital. Criado para servir uma população de 300 mil pessoas, o Fernando Fonseca responde atualmente a uma população que é cerca do dobro da que foi apontada como limite há quase 30 anos.


Em grande parte, essa pressão sobre o hospital resulta da procura das urgências por parte de uma população que não tem médico de família atribuído (cerca de 200 mil pessoas) e que vê nos serviços de urgência uma porta de entrada para o acesso a cuidados de saúde. “A pressão é grande e a imigração tem um papel importante”, aponta Sandra Cavaca, que recorre a uma imagem ilustrativa do dia a dia naqueles serviços: “No hospital, comunica-se muito através do Google Tradutor.”

(...)

A urgência do hospital Amadora-Sintra acaba por ser, muitas vezes, a porta de entrada de muitos utentes, uma vez que um terço da população abrangida pela ULS Amadora-Sintra não tem médico. São cerca de 200 mil pessoas. O atual Conselho de Administração tem um plano para mitigar esta situação?

Sim, temos cerca de 200 mil pessoas sem médico. Temos a descoberto centros de saúde muito difíceis: Agualva, Olival, Mira-Sintra, Monte Abraão, São João das Lampas, Algueirão Mem-Martins. É aqui que existe maior concentração de pessoas sem médico de família. Estas unidades têm enfermeiros, mas não têm médicos. E o que estamos a fazer? Vamos criar seis gabinetes de teleconsulta, com especialistas em Medicina Geral e Familiar, para dar algum tipo de resposta a estas pessoas. Temos obrigação de lhes dar cuidados.

“O défice de camas é muito elevado. Andamos sempre num sufoco”

Voltemos à realidade hospitalar. Sabe-se que o hospital Amadora-Sintra está subdimensionado, nomeadamente no que diz respeito ao internamento. Quantas camas é que faltam à ULS neste momento?

Precisávamos de mais umas 100 camas. Nós temos 0,8 camas por 1000 habitantes. A média nacional é 3,7 camas por mil habitantes. Estamos muito abaixo. Temos que ter uma rotação elevada de altas, porque quanto mais depressa dermos as altas, melhor. Temos feito um esforço neste sentido, porque senão já tínhamos colapsado. O défice de camas é muito elevado. Andamos sempre num sufoco, não conseguimos internar, temos macas nos corredores.

(...)

40% dos utentes da área da obstetrícia da ULS Amadora-Sintra são estrangeiros

Está no cargo há seis meses. Sente que a pressão sobre a ULS continua a aumentar? E relaciona isso com o aumento da população migrante?

A pressão é grande e a imigração tem um papel importante. Na obstetrícia, a maior parte dos nossos nascimentos são de pessoas estrangeiras. Temos utentes de 150 nacionalidades.

 

Que percentagem de utentes da ULS são estrangeiros?

Penso que será à volta de 40%. [A percentagem global é de 18%, informou depois a ULS Amadora-Sintra, sendo que aumenta para os 40% na área da obstetrícia]

 

Há outro fenómeno que tem vindo a agravar-se nos últimos anos, que é o chamado turismo de saúde, ou seja, pessoas que vêm a Portugal só para acederem a cuidados de saúde. É um problema para esta ULS?

É difícil. As pessoas vêm e não podemos negar assistência a ninguém. Há muitas pessoas que chegam ao aeroporto e vêm para aqui. Já têm familiares na zona e vêm. É um problema. Vem muita gente à urgência, muitas pessoas vão aos cuidados primários. As pessoas sabem que basta esperarem 90 dias e podem ter acesso aos cuidados primários. E acredito que não seja só aqui. Nesta ULS nota-se muito porque aqui à volta a imigração é muita. Aliás, no hospital comunica-se muito através do Google Tradutor. Muitas pessoas não falam inglês. Isso é também muito exigente para os profissionais, e temos bons profissionais, resilientes. É muito improviso, mas funciona. Sei que a Constituição diz que temos de prestar cuidados. Mas, se formos a outros países — à Suíça, por exemplo, ou aos EUA —, se precisar de cuidados, tem de os pagar. Não há urgências em que não se paga. Nós prestamos os cuidados, somos obrigados a prestá-los, mas depois cobramos a quem? Sabemos a quem prestamos os cuidados, o problema é depois fazer o rastreamento e saber quem vai pagar. Se a pessoa não desconta… Portugal tem uma política diferente, e não estou a dizer que está errada.


"As pessoas vêm e não podemos negar assistência a ninguém. Há muitas pessoas que chegam ao aeroporto e vêm para aqui. Já têm familiares na zona e vêm"

Na Obstetrícia há pessoas que vêm propositadamente para acederem a cuidados e terem o parto no SNS?

Não tenho dúvidas. Vêm.


A Sandra Cavaca foi nomeada para gerir a ULS Amadora-Sintra, que é das mais complexas do país, mas não tem nenhuma experiência prévia em gestão hospitalar. Isso é um handicap [desvantagem]?

Não, acho que é até uma vantagem. Eu giro muito bem pessoas — é o meu ponto forte. Daquilo que me tenho apercebido, as pessoas não têm sido ouvidas neste hospital e, portanto, se não fizermos mudanças com as pessoas que cá temos, não fazemos nenhuma mudança. O ambiente na ULS melhorou nos últimos meses.


Jornal Observador, 13 set. 2026

https://observador.pt/especiais/presidente-do-amadora-sintra-ha-pessoas-que-chegam-ao-aeroporto-e-vem-para-aqui/?fbclid=IwY2xjawUYwkRwZG9mAWV4dG4DYWVtAjEwAGJyaWQRMGlISTVhbTZ1RmgyNlkxeVZzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEe2Qi7kr71rKOWogOl4kjpkdTK7GC0QqncHHF99XrwPrvYKYSk49N5rbx4aro_aem_55QOEYTArZiY6LRzp8VQ1Q

Casamento forçado/ Casamento Infantil - Cultura ou violação grave da Declaração Universal dos Direitos Humanos ?

https://www.facebook.com/reel/1612036763782572 


Onde estás tu, ONU?

Isto é encarado nos nossos tempos, como uma forma de escravatura moderna.



Arrábida: cercámos a serra, alterámos o território e agora a solução mais fácil é matar? - Ambiente e Ordenamento do Território

 



CARTA ABERTA AOS AUTARCAS DE PALMELA, AO PRESIDENTE DO ICNF E AOS RESPONSÁVEIS DA MIRPURI FOUNDATION
Arrábida: cercámos a serra, alterámos o território e agora a solução mais fácil é matar?
Exmos. Senhores Autarcas dos Municípios de Palmela, Sesimbra e Setúbal,
Exmo. Senhor Presidente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas,
Exmos. Senhores responsáveis da Mirpuri Foundation,
Há perguntas que deixam de poder ser adiadas quando as consequências das decisões tomadas no território começam a aparecer diante dos nossos olhos.
A Serra da Arrábida não nasceu ontem.
Não nasceu com os atuais executivos municipais, não nasceu com o ICNF, não nasceu com qualquer fundação, grupo económico, proprietário ou investidor e, seguramente, não pertence moralmente a quem tenha maior capacidade financeira para adquirir parcelas do seu território.
A Arrábida é muito mais antiga do que todos nós.
É património natural.
É habitat.
É corredor ecológico.
É espaço de circulação de espécies.
É uma realidade ambiental que não pode ser observada exclusivamente mediante escrituras, muros, portões, cercas ou delimitações de propriedade.
E é precisamente por isso que chegou o momento de fazer algumas perguntas incómodas.
Durante os últimos anos temos assistido à instalação de vedações, cercas e outras formas de delimitação em diversas propriedades inseridas ou próximas do Parque Natural da Arrábida.
Naturalmente, a propriedade privada existe e merece proteção.
Naturalmente, um proprietário tem direitos.
Mas num Parque Natural — ou na sua área de influência — esses direitos não podem ser analisados como se estivéssemos perante um terreno industrial situado num qualquer parque empresarial.
Há fauna.
Há corredores naturais.
Há ecossistemas.
Há equilíbrios.
Há obrigações ambientais.
E há interesse público.
Por isso, a pergunta não é simplesmente saber se determinada vedação está dentro dos limites de uma propriedade.
A verdadeira pergunta é outra:
Qual foi o impacto acumulado dessas vedações na circulação da fauna da Arrábida?
Essa avaliação foi feita?
Por quem?
Quando?
Com que estudos?
Com que conclusões?
E essas conclusões são públicas?
A Arrábida não pode transformar-se num conjunto de quintas muradas
Nos últimos anos, a aquisição, exploração ou gestão de propriedades de grande dimensão na Serra da Arrábida e na sua envolvente por entidades privadas — entre as quais estruturas associadas ao universo Mirpuri — tem sido matéria conhecida publicamente.
Nada há de censurável na aquisição legítima de propriedade.
O problema começa quando a população fica sem perceber onde termina o legítimo exercício do direito de propriedade e onde começa a necessidade de proteger um território classificado cujo valor ultrapassa qualquer interesse particular.
É por isso que importa esclarecer, sem insinuações e sem meias-palavras:
Que propriedades foram vedadas?
Que autorizações foram concedidas?
Que pareceres ambientais foram emitidos?
Que entidades fiscalizaram essas intervenções?
Que estudos foram realizados relativamente à circulação de javalis e de outras espécies?
Foram identificados corredores ecológicos antes da colocação dessas barreiras?
Foram deixadas passagens adequadas à fauna?
Foi alguma vez estudado o efeito conjunto de dezenas de quilómetros de vedações espalhadas pela serra?
Porque aquilo que individualmente pode parecer apenas uma cerca transforma-se, quando multiplicado pelo território, numa verdadeira fragmentação do habitat.
E a fauna não lê registos prediais.
O javali não sabe onde termina uma escritura.
A raposa não conhece estremas.
O texugo não reconhece portões.
O veado, quando existe, não consulta plantas cadastrais antes de procurar água.
Os animais conhecem caminhos.
Conhecem alimento.
Conhecem abrigo.
Conhecem água.
Conhecem os percursos que durante gerações fizeram parte do seu território.
Quando esses percursos são interrompidos, os animais procuram outros.
E depois ficamos surpreendidos quando aparecem nas estradas, junto às localidades, nos campos agrícolas, perto das habitações ou em zonas frequentadas pela população.
Talvez fosse tempo de inverter a pergunta.
Em vez de perguntarmos apenas:
“Porque vieram os animais para aqui?”
Talvez devêssemos perguntar:
“O que fizemos nós ao território para os obrigar a procurar outros caminhos?”
E depois aparece a solução extraordinariamente simples: matar
É aqui que esta discussão se torna particularmente desconfortável.
Durante anos o território é transformado.
Vedam-se propriedades.
Criam-se barreiras.
Fragmentam-se espaços.
Alteram-se rotas.
Aumenta-se a presença humana.
Mudam-se usos do solo.
Criam-se pressões sobre os habitats.
A população animal cresce.
Os animais começam a procurar alternativas.
Aproximam-se das localidades.
E, quando finalmente o problema chega à porta das populações, surge a solução que para alguns parece extraordinariamente simples:
Matar.
Matar os javalis.
Abater.
Eliminar.
Reduzir números.
Transformar numa operação cinegética aquilo que deveria, antes de tudo, ser uma profunda auditoria às decisões tomadas no território ao longo dos últimos anos.
Que conveniente…
O homem altera.
O homem cerca.
O homem ocupa.
O homem condiciona.
O homem perturba.
E, quando o animal reage às condições que lhe foram criadas, é o animal que morre.
Há qualquer coisa profundamente errada nesta lógica.
Não afirmo que nunca possa existir necessidade técnica de controlo populacional.
Isso compete aos especialistas, aos biólogos, aos veterinários, aos técnicos de conservação da natureza e às autoridades competentes determinar.
Mas recuso aceitar que a primeira palavra da discussão seja “abate” quando tantas perguntas anteriores continuam sem resposta.
Antes de matar um único animal deveria ser obrigatório responder:
Quantos existem realmente?
Qual é a capacidade de carga do território?
Porque aumentou a população?
Que alterações ocorreram no habitat?
Que corredores foram interrompidos?
Que zonas foram vedadas?
Que impactes tiveram essas vedações?
Existem alternativas de gestão populacional?
Existem soluções de recondução para zonas menos sensíveis?
Existem corredores ecológicos que possam ser recuperados?
Existem barreiras que possam ser adaptadas para permitir passagem de fauna?
Foi feito algum estudo sério e independente sobre tudo isto?
Porque matar é extraordinariamente fácil.
Difícil é reconhecer que talvez tenhamos contribuído para criar o problema.
Aos autarcas de Palmela: não basta assistir
O Município de Palmela não pode considerar esta matéria um problema distante simplesmente porque a serra atravessa diferentes limites administrativos.
A Arrábida não conhece fronteiras municipais.
Os animais também não.
Aquilo que acontece de um lado da serra repercute-se necessariamente no outro.
Palmela tem território integrado no Parque Natural da Arrábida e tem, por isso, legitimidade política e institucional para exigir respostas.
Os autarcas de Palmela devem perguntar ao ICNF quantas vedações foram licenciadas ou autorizadas em áreas ambientalmente sensíveis.
Devem perguntar quais os pareceres emitidos.
Devem perguntar que impacto essas estruturas têm na circulação da fauna.
Devem exigir estudos.
Devem pedir fiscalização.
Devem reclamar transparência.
E devem assumir uma posição clara perante qualquer solução que coloque o abate dos animais à frente da investigação das causas.
Porque governar não é apenas aparecer quando existe uma solução pronta.
Governar é fazer perguntas quando toda a gente prefere o silêncio.
Ao ICNF: conservar não é apenas administrar
Ao Senhor Presidente do ICNF cabe uma responsabilidade acrescida.
O Instituto existe precisamente para proteger aquilo que não tem voz própria.
A natureza.
Os habitats.
As espécies.
O equilíbrio dos ecossistemas.
Por isso, o ICNF deve esclarecer publicamente:
Que avaliação fez relativamente à fragmentação das propriedades na Arrábida?
Que conhecimento possui das vedações existentes?
Quantas foram objeto de parecer?
Quantas foram fiscalizadas?
Quantas foram alteradas por determinação do Instituto?
Existem estudos sobre corredores ecológicos?
Existe cartografia das principais rotas da fauna?
Foi analisada alguma relação entre a instalação de cercas e o aumento da presença de javalis junto de áreas habitadas?
Que alternativas ao abate estão efetivamente em estudo?
E, se não existem respostas para estas perguntas, talvez seja precisamente essa ausência de conhecimento que deva preocupar-nos.
Porque gerir uma área protegida sem compreender a circulação da fauna é administrar apenas linhas num mapa.
E uma serra não é um mapa.
É um organismo vivo.
Aos responsáveis da Mirpuri: propriedade não significa soberania sobre a natureza
Também aos responsáveis da Mirpuri Foundation e às entidades do respetivo universo com interesses patrimoniais ou ambientais na região deve ser feito um pedido simples:
Transparência.
Não se questiona aqui o direito legítimo à propriedade privada.
Questiona-se algo completamente diferente:
Que impacto têm as intervenções realizadas nessas propriedades sobre o território envolvente?
Sempre que existem vedações em áreas ambientalmente sensíveis, deve ser possível conhecer os respetivos fundamentos, licenças, pareceres ambientais e medidas de mitigação.
Porque quem chega à Arrábida — seja uma família, uma empresa, uma fundação ou um investidor — não chega a uma folha em branco.
Chega a um Parque Natural.
Chega a um território com história.
Chega a um ecossistema anterior a qualquer escritura.
Chega a um património que continuará a existir muito depois de todos nós.
Comprar terra não significa comprar a natureza que a atravessa.
Ter propriedade não significa poder ignorar os equilíbrios que existem à sua volta.
E proteger património privado não pode significar empurrar silenciosamente um problema ecológico para a propriedade seguinte, para uma estrada, para uma aldeia ou para uma zona urbana.
Se todas as intervenções realizadas estão devidamente licenciadas, ambientalmente avaliadas e tecnicamente justificadas, então não haverá qualquer dificuldade em apresentar essa documentação e explicar publicamente os critérios adotados.
Aliás, essa transparência seria a melhor forma de acabar com dúvidas e suspeitas.
Antes de apontarem a arma, apontem para os documentos
É muito simples colocar um javali na mira.
Mais difícil é colocar na mesa uma década de decisões administrativas, autorizações, pareceres, aquisições, vedações e alterações no território e perceber de que forma contribuíram, ou não, para a situação atual.
É isso que deve acontecer.
Antes das espingardas, os processos.
Antes das batidas, os estudos.
Antes do abate, a ciência.
Antes de matar, investigar.
Porque não podemos construir uma política ambiental baseada numa sequência absurda:
Primeiro alteramos o território.
Depois fechamos caminhos.
Depois os animais procuram alternativas.
Depois aproximam-se das populações.
Depois dizemos que existe um problema.
E finalmente matamo-los.
Não.
Isso não é conservação da natureza.
É gerir consequências sem querer discutir causas.
Matar não pode servir para apagar perguntas
É precisamente esta a questão que deve incomodar quem tem responsabilidades públicas:
Será que estamos perante um verdadeiro plano de gestão ecológica ou apenas perante a maneira mais rápida de fazer desaparecer aquilo que se tornou inconveniente?
Porque um animal morto deixa de atravessar uma estrada.
Deixa de aparecer numa praia.
Deixa de incomodar proprietários.
Deixa de surgir nos vídeos das redes sociais.
E, sobretudo, deixa de nos obrigar a perguntar porque estava ali.
Talvez seja essa a parte mais cómoda do abate.
O animal desaparece.
Mas com ele não desaparecem as decisões humanas que possam ter contribuído para o problema.
Uma serra fragmentada continua fragmentada.
Uma vedação continua no mesmo sítio.
Um corredor ecológico interrompido continua interrompido.
Uma má decisão administrativa continua a ser uma má decisão administrativa.
E uma pergunta sem resposta continua a ser uma pergunta sem resposta.
Exigimos respostas, não desculpas
Aos autarcas de Palmela, ao ICNF e às entidades privadas com intervenção relevante neste território não se pede um favor.
Pede-se aquilo que deveria ser elementar numa democracia e num Parque Natural:
Transparência.
Fiscalização.
Ciência.
Responsabilidade.
E respeito.
Respeito por quem vive na Arrábida.
Respeito por quem possui propriedades na serra.
Respeito por quem trabalha nela.
Respeito pelos agricultores.
Respeito pelos visitantes.
E, sim, respeito pelos animais.
Porque os javalis não participaram numa reunião de Câmara.
Não assinaram escrituras.
Não requereram licenças.
Não instalaram vedações.
Não desenharam mapas.
Não alteraram planos de ordenamento.
Não emitiram pareceres.
Não decidiram onde termina uma propriedade.
E seguramente não decidiram que o seu habitat deveria transformar-se num mosaico de espaços progressivamente compartimentados.
Foram os homens.
Se existiram decisões erradas, foram humanas.
Se existiram omissões, foram humanas.
Se existiram autorizações inadequadas, foram humanas.
Se existiu falta de fiscalização, foi humana.
Se existiram intervenções perfeitamente legais e ambientalmente corretas, então que isso seja demonstrado documentalmente e sem hesitações.
Mas aquilo que não podemos fazer é resolver eventuais erros humanos simplesmente matando os animais que ficaram no meio deles.
Essa solução pode ser rápida.
Pode ser barata.
Pode produzir números para apresentar numa reunião.
Pode até permitir dizer que o problema foi “controlado”.
Mas não responde à pergunta fundamental:
O que fizemos à Arrábida para chegarmos aqui?
É essa resposta que Palmela merece.
É essa resposta que Setúbal merece.
É essa resposta que quem vive na serra merece.
E é essa resposta que o ICNF deve exigir antes de qualquer decisão irreversível.
Porque matar é irreversível.
Investigar não.
Corrigir não.
Retirar barreiras inadequadas não.
Recuperar corredores ecológicos não.
Repensar o território não.
Por isso, antes de decidirem o destino dos javalis, decidam finalmente investigar o destino que fomos dando à própria Arrábida.
Porque talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido o animal que atravessou a cerca.
Talvez o verdadeiro problema tenha começado quando nós decidimos construir a cerca e nunca quisemos saber para onde o animal iria depois.
A Arrábida não é propriedade exclusiva de ninguém.
Podemos possuir parcelas de terra.
Podemos ter escrituras.
Podemos ter muros.
Podemos ter portões.
Mas nenhum documento de propriedade concede domínio absoluto sobre um ecossistema.
E muito menos concede o direito moral de transformar os animais em culpados pelas consequências das nossas próprias decisões.
Se existem javalis a mais, expliquem porquê.
Se existem vedações a mais, avaliem-nas.
Se existem decisões erradas, corrijam-nas.
Se existem ilegalidades, investiguem-nas.
Se tudo foi feito corretamente, provem-no.
Mas não escolham primeiro a solução mais fácil.
Não matem primeiro para investigar depois. Pois sabemos que é a solução mais fácil, mas se os animais também escolhessem esta situação, para matar o excesso de pessoas que diariamente invadem-lhes território, como seria? Nós, os humanos gostávamos de estar na mira de uma qualquer espingarda manuseada pelos animais?
Já fomos à procura de todos os responsáveis, quem os trouxe para o Parque Natural da Arrábida, quem autorizou vedações dentro de um Parque Natural, é mais fácil matar, matar, matar os animais que colocam em perigo o público e a saúde, pelos vistos.
Porque quando a última pergunta for finalmente respondida, os animais abatidos já não poderão regressar.
E talvez então descubramos que, afinal, nunca foram eles que começaram este problema.
Foram apenas aqueles que acabaram por pagar por ele.

Miguel Garcia     16/9/2026