sexta-feira, 17 de julho de 2026

Sem filhos, nem netos: como a probabilidade prevê o nosso futuro coletivo

 O que significa, na prática, um Índice de fecundidade pouco acima de 1? Quantas pessoas não terão filhos ou família que as apoie na velhice? O que quer isto dizer sobre nós e sobre o nosso futuro coletivo?



Para quem nasceu em 1970, a probabilidade de ser filho único é apenas de 16%. Hoje essa probabilidade dispara para 46%.

Cada mulher tinha, em média, 3 filhos na década de 1970. Nos tempos que correm o número médio de filhos por mulher é muito inferior: 1,4.

Com este valor de 1,4, e se nada se alterar nos próximos 30 anos, a probabilidade de uma mulher em idade fértil não ter filhos, nem vir a ter, é de 25%.

Mas como podemos chegar a cálculos como este? Na estatística há uma lei fascinante. Chama-se lei dos acontecimentos raros ou distribuição de Poisson.

A sua descoberta remonta ao início do século XVIII. Em 1711, ao trabalhar no seu famoso livro The Doctrine of Chances - um tratado pioneiro sobre probabilidade dedicado aos jogadores -, o matemático Abraham de Moivre analisava quantas vezes seria necessário lançar um ou mais dados para que a probabilidade de um determinado evento ocorrer fosse de 50%.

Foi precisamente ao tentar calcular eventos de baixa probabilidade para um número muito elevado de jogadas que ele deduziu matematicamente o que hoje chamamos de distribuição de Poisson.

Aplicando ao caso concreto do número de filhos por mulher, se a média de filhos for igual a 3 num determinado ano, então, para uma mulher (em idade fértil), nesse ano, a probabilidade de não ter filhos é de 5%, pois 3 é aproximadamente igual à parte positiva de logaritmo de 5%, ou, em notação matemática, 3=-ln(0,05).

Numa linguagem simplificada, podemos dizer que, neste contexto, apenas 5 em cada 100 mulheres não têm filhos.

É esta a base de cálculo que nos permite fazer simuladores como este:

Veja no simulador em baixo quantas pessoas nasceram no mesmo ano de nascimento que o seu e quantas terão tido o mesmo número de irmãos.


https://ffms.pt/pt-pt/atualmentes/sem-filhos-nem-netos-como-probabilidade-preve-o-nosso-futuro-coletivo?utm_id=97758_v0_s00_e0_tv4_a1demo0e1898e4&fbclid=IwY2xjawTGvi1leHRuA2FlbQIxMABicmlkETB5d01KU0NhTWtoTGhWbm83c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHl9uU60k3fWVngmH6fReFPEZMPiQvIskbmY67rhgFNG2RPBQjGpnLaUfqE23_aem_gQ6QsO708qmz4AqSAgPmUg


Pode ter também curiosidade em saber o que a lei dos acontecimentos raros de Poisson tem a dizer sobre a probabilidade de vir a ter netos.

Se ainda não tem netos indique no simulador abaixo os anos em que nasceram os seus filhos para saber qual é a probabilidade de virem a ter descendência. E para saber quantos netos, em média, caso o padrão de natalidade se mantenha de ora em diante.

Cada vez temos menos filhos e netos e isso significa que a rede familiar de apoio de proximidade da futura população idosa, em Portugal, poderá ficar reduzida a uma ou duas pessoas. Será, até, inexistente, para um número significativo de casos.

Para quantificar o quadro que teremos no futuro (em 2070, por exemplo), seria importante saber quantas pessoas na faixa etária dos 30 aos 45 anos são filhos únicos, quantos têm um irmão, dois, etc., quantos não têm filhos nem virão a ter (ou um, dois, três, etc.), quantos filhos têm ou virão a ter os irmãos, e quantos irmãos ainda estarão vivos e em condições de prestar apoio em caso de necessidade.

Não temos esses dados, mas a lei dos acontecimentos raros de Poisson permite-nos gerar indivíduos virtuais (como se fossem os nossos avatares) e que são bons clones da realidade.

O processo começa com os números das projeções da população. Esses dados encontram-se disponíveis no site do INE:


Usando um processo automatizado de escolha aleatória, seleciona-se um indivíduo deste universo. Vamos admitir que a seleção recaiu em alguém com 77 anos. Agora há que recuar ao ano de nascimento para lhe atribuir um número de irmãos, filhos, netos e sobrinhos, também de forma aleatória mas de modo a ter em conta as taxas de natalidade ao longo dos anos.

Então, vejamos: uma pessoa com 77 anos em 2070, nasceu em 1993 (terá, em 2026, 33 anos). Em 1993 o número médio de filhos por mulher em idade fértil era 1,52, pelo que, a probabilidade de lhe atribuir 0 irmãos é 43%, 1 irmão é 32%, 2 irmãos 16%, etc.

São estas probabilidades que vão reger a simulação. Tudo isto se replica para filhos, sobrinhos e netos. Trata-se de uma simulação que recorre a modelos de probabilidade e a parâmetros conhecidos, que se admite serem bons indicadores da realidade atual e futura.

Para se traçar o quadro futuro é necessário repetir o processo muitas e muitas vezes.

A tabela abaixo tem as médias que resultaram de simulações para 2030 e para 2070, simulações essas que envolveram, cada uma, a escolha aleatória de 4.500 indivíduos com 75 anos ou mais, de acordo com a distribuição por idades determinada pelas projeções do INE.


O que indicam as projeções de 2030 e de 2070

  • Em 2030, o núcleo mais próximo com condições para apoio tinha, em média, 3,7 pessoas (filhos e irmãos). Para 2070 prevê-se uma redução para 1,7 (menos duas pessoas no núcleo direto de apoio).
  • As projeções indicam um aumento de 9,2% para 50,1% na percentagem de idosos que terão, no máximoum familiar próximo para apoio. Estes 50,1% traduzem-se em mais de 1 milhão de pessoas sem rede familiar de apoio em 2070 ou, no máximo, com um familiar próximo.

Se tem entre 30 e 50 anos e tem entre 0 e 3 irmãos, veja em baixo quantos dos avatares mais se assemelham a si e quantas pessoas se prevê que venham a ter, em média, na rede familiar de proximidade em 2070. ( clicar no link)

Estes cálculos permitem-nos antecipar a evolução demográfica no país, antevendo, os desafios que teremos num futuro próximo.  

A redução do tamanho das famílias terá impactos práticos no quotidiano dos futuros idosos, traduzindo-se numa menor disponibilidade de apoio informal para tarefas diárias, como a logística de deslocações médicas ou o amparo na perda de autonomia.

Se, por um lado, o Estado necessita de adaptar as políticas públicas e os sistemas de segurança social a esta nova realidade, por outro, a resposta não pode ser exclusivamente institucional. Há um espaço crucial para a prevenção individual. Planear o envelhecimento exige olhar, não só para a vertente financeira, como investir na criação de redes de vizinhança, em projetos de coabitação ou em laços de afinidade que compensem a falta de retaguarda familiar.

Quando o apoio dos laços de sangue diminui, o bem-estar na velhice passa a depender, em grande parte, da nossa capacidade coletiva e individual de construir hoje as comunidades que nos acolherão amanhã.


ffms.pt  Luisa Loura   29/6/2026

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Registos de mutilação genital feminina aumentaram 15% em Portugal no ano passado

 


O número de registos de mutilação genital feminina (MGF) em Portugal aumentou 15% em 2025, para um total de 292, anunciou na terça-feira a Direção-Geral da Saúde (DGS), que atribuiu esse crescimento à maior sensibilização dos profissionais de saúde.


O boletim que atualiza os dados sobre esta prática indica que entre 2024 e 2025 o número de registos de MGF passou dos 254 para os 292, muito acima dos 60 verificados em 2017, o número mais baixo da última década.


A DGS salienta que a mutilação genital feminina é reconhecida internacionalmente como uma violação dos direitos humanos e, enquanto ato de violência de género, faz parte de um "conjunto de práticas nefastas que ainda persistem na atualidade", merecendo a atenção de diversos acordos internacionais e nacionais, como é o caso da Convenção de Istambul, ratificada por Portugal.


A direção-geral reconhece que, ao longo da última década, tem-se verificado um aumento progressivo do número de registos de MGF na plataforma Registo de Saúde Eletrónico - Área do Profissional, mas realça que essa evolução "reflete a crescente sensibilização e capacitação dos profissionais de saúde" para a identificação e o registo destas situações, não significando, necessariamente, um aumento desta prática.


Em 2025, não foi registado qualquer caso de MGF realizada em Portugal, assegura ainda a DGS, adiantando que a maioria das situações foi identificada no âmbito da vigilância da gravidez, do parto e do puerpério, o que reforça a "importância destes contactos com os serviços de saúde na deteção e acompanhamento das mulheres sobreviventes desta prática".


O boletim aponta também uma maior abrangência territorial dos registos, tendo em conta que, embora a maioria continue concentrada na região de Lisboa e Vale do Tejo, no último ano verificou-se um aumento de registos realizados por unidades de saúde das regiões Norte, Centro e Algarve.


Em 2025, a idade média em que a MGF foi registada como realizada foi de 7,7 anos, tendo cerca de 70,7% das mutilações ocorrido até aos nove anos, indica ainda a DGS, apontando que foram registadas complicações em 155 mulheres (53,1%), como as psicológicas, obstétricas, da resposta sexual e uro-ginecológicas.


SIC Notícias    15/7/2026

Ambiente - Cascais

 










Os garranos são hoje parte da identidade da encosta sul do Parque Natural Sintra-Cascais, junto ao Santuário da Peninha.
Têm também uma missão muito importante para os ecossistemas: menos mato, menor risco de incêndio, mais biodiversidade e uma paisagem mais bem gerida.





Conheça algumas memórias das nossas praias.
Histórias de quem aqui cresceu, viveu e trabalhou. Uma autêntica viagem pelo passado e tradições de Cascais, que ainda se mantêm nos dias de hoje.
Em Cascais, as praias são cuidadas todos os dias. Porque uma praia com Bandeira Azul, não é só uma praia limpa. É uma praia vivida por todos.

Riqueza piscatória.





Uma das plantas endémicas do nosso Parque Natural Sintra-Cascais é o Dianthus citranus, conhecida por cravina-de-sintra.
É uma espécie protegida, em vias de extinção, e, por essa razão, a nossa equipa do Banco Genético Vegetal Autóctone assegura a sua monitorização, propagação e novas plantações, de forma a preservar esta espécie tão importante para o nosso habitat. Estes trabalhos estão também englobados no âmbito do projecto Life ResLand.
Na semana passada, foi altura de monitorização, pois esta espécie está em época de floração e foi possível visualizar mais núcleos espontâneos.
Todos podemos ajudar a preservar esta espécie. Evite o pisoteio fora dos trilhos e não realize colheitas não autorizadas.




Na paisagem selvagem do Guincho, existe um dos sistemas dunares mais emblemáticos da costa portuguesa.

A Duna da Cresmina é muito mais do que areia: é um ecossistema vivo, moldado pelo vento, pelo sal e pelo tempo.

Ao longo do passadiço interpretativo, poderá observar a vegetação adaptada às condições extremas, compreender a importância das dunas na proteção costeira e descobrir como estes habitats frágeis desempenham um papel essencial na defesa contra a erosão e na conservação da biodiversidade.

É um espaço ideal para caminhar, aprender e contemplar, sempre com respeito pela natureza.


terça-feira, 14 de julho de 2026

Ambiente - Declínio catastrófico de 73% nas populações globais de vida selvagem nos últimos 50 anos e sobrevivência animal em cidades

 


A catastrophic 73% decline in global wildlife populations over the past 50 years reveals a planet on the brink of ecosystem collapse.

According to the World Wildlife Fund’s (WWF) Living Planet Report, monitored wildlife populations around the globe have plummeted by an average of 73% since 1970. This staggering biological loss is led by freshwater species, which have experienced a catastrophic 85% decline.

Conservation scientists warn that these plummeting numbers are not just a tragedy for nature, but a direct threat to human survival, as ecosystems near dangerous, irreversible tipping points. Habitat degradation, driven primarily by our intensive global food systems, along with climate change and overexploitation, remains the chief catalyst behind this ecological collapse.

To prevent catastrophic feedback loops, experts emphasize that the next five years will be crucial for the future of life on Earth.

Halting this decline requires an unprecedented global transformation of our agricultural, energy, and financial systems. By implementing stronger conservation measures and shifting toward sustainable food production, humanity still has a narrow window to restore the natural world. Failing to act risks destabilizing the vital systems that provide our clean air, drinking water, and agricultural stability, proving that saving wildlife is ultimately about saving ourselves.

source: World Wildlife Fund.. Living Planet Report: A System in Peril. WWF, Gland, Switzerland.

Um declínio catastrófico de 73% nas populações globais de vida selvagem nos últimos 50 anos revela um planeta à beira do colapso dos ecossistemas.

De acordo com o relatório *Living Planet Report* (Relatório Planeta Vivo) da World Wildlife Fund (WWF), as populações de vida selvagem monitorizadas em todo o mundo sofreram uma queda média de 73% desde 1970. Esta perda biológica alarmante é liderada pelas espécies de água doce, que registaram um declínio catastrófico de 85%.

Os especialistas em conservação alertam que esta queda acentuada dos números não é apenas uma tragédia para a natureza, mas uma ameaça direta à sobrevivência humana, à medida que os ecossistemas se aproximam de pontos de inflexão perigosos e irreversíveis. A degradação dos habitats — impulsionada principalmente pelos nossos sistemas alimentares globais intensivos, juntamente com as alterações climáticas e a sobre-exploração — continua a ser o principal factor deste colapso ecológico.

Para evitar ciclos de feedback catastróficos, os especialistas sublinham que os próximos cinco anos serão cruciais para o futuro da vida na Terra.

Travar este declínio exige uma transformação global sem precedentes nos nossos sistemas agrícolas, energéticos e financeiros. Ao implementar medidas de conservação mais rigorosas e ao transitar para uma produção alimentar sustentável, a humanidade dispõe ainda de uma janela de oportunidade restrita para restaurar o mundo natural. A falta de acção traz o risco de desestabilizar os sistemas vitais que nos fornecem ar limpo, água potável e estabilidade agrícola, demonstrando que salvar a vida selvagem é, em última análise, salvarmo-nos a nós próprios.

fonte: World Wildlife Fund. Relatório Planeta Vivo: Um Sistema em Peril. WWF, Gland, Suíça.

Hashem Al-Ghaili

    13/7/2026  




Isto não é resiliência. É falta de opção.
Desenhámos cidades com espinhos para afastar a vida, mas a convivência ética é o único caminho. Coexistir é um dever, não um favor.

Olhem bem para esta imagem. À primeira vista, muitos veem “resiliência” ou até acham graça à audácia deste pombo. Mas a verdade por trás desta foto não é romântica: é um grito de socorro e um reflexo da nossa falta de empatia.
O que vemos aqui é o resultado da arquitetura hostil que criámos para afastar tudo o que seja vida. Desenhámos cidades que não repelem apenas pessoas em situação de sem-abrigo; desenhámos cidades que declararam uma guerra silenciosa e cruel à biodiversidade urbana.

Colocamos picos, redes e barreiras afiadas. Forçamos animais a uma batalha diária e violenta pela sobrevivência, empurrando-os para a escuridão e para o perigo, apenas por existirem no mesmo espaço que nós, depois de os termos decidido abandonar há pouco mais de cem anos, pois os pombos, em especifico, são animais que domesticános há 5000 anos.

Este pombo e tantos outros, não fizeram o ninho em cima de espinhos de metal porque o local era o ideal. Fizeram o ninho ali porque já não lhes restam opções.

Nenhum ser vivo deveria ter de lutar uma vida inteira, contra espinhos de metal, só para conseguir o direito básico de descansar ou de proteger os seus filhos. Os pombos fazem parte da nossa história há séculos, e durante milhares de anos foram vistos como símbolo de prosperidade, paz, sorte, e hoje decidimos tratá-los pior que lixo descartável.
Precisamos de parar de aplaudir a “sobrevivência ao limite” e começar a exigir cidades coexistentes. Cidades com pombais contracetivos urbanos (que controlam a população de forma ética e saudável), cidades com espaços verdes, cidades que respeitem a vida.

Coexistência não é um favor. É uma dívida que temos com a natureza que teimamos em querer esmagar. 

Save & Care    13/7/2026



Em Rafaela, na província de Santa fé na Argentina.



A prefeitura começou a estalar redes ( conhecida como "rede antepassaros) sobres as copas de algumas árvores.
O objetivo é não deixar os pássaros pousem nas árvores para dormir e suje as calçadas .
Já não basta o que estamos fazendo com os animais, matas, florestas, rios etc .
Agora impedir deles ter abrigo nas árvores.
"Somente quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro."

Eliangela Henrique    13/7/2026