A fotografia foi feita na década de 1890 e mostra uma mulher chinesa que teve os pés enfaixados desde menina. Ela não era exceção. Para milhões de mulheres, aquela dor era o preço para existir dentro do que a sociedade considerava “adequado”.
A prática ficou conhecida como foot binding (enfaixamento dos pés). Começava quando as meninas ainda eram muito pequenas. Seus pés eram dobrados, os ossos propositalmente fraturados e depois enfaixados com extrema pressão para impedir o crescimento natural. Com o tempo, o pé assumia uma forma reduzida e deformada, chamada de “pé de lótus”. Os sapatos feitos para esses pés eram minúsculos, delicados e altamente valorizados.
Na China tradicional, pés pequenos simbolizavam status, refinamento e beleza feminina. Dizia-se que uma mulher com “pés de lótus” caminhava com graça. O que não se dizia era sobre a dor constante, as infecções, a dificuldade para ficar em pé e as limitações físicas que marcavam toda a vida.
Muitas mulheres mal conseguiam andar sem apoio. Algumas não conseguiam andar de jeito nenhum. Mesmo assim, o costume persistiu por séculos, porque estava ligado ao casamento, à honra da família e à posição social. Não era uma escolha individual , era uma imposição cultural profundamente enraizada.
No início do século XX, surgiram campanhas para erradicar a prática. A mudança foi lenta. Mulheres das áreas urbanas e de famílias mais abastadas foram as primeiras a abandonar o costume. Já nas zonas rurais, ele continuou por décadas.
Em 2007, restavam pouquíssimas mulheres na China que ainda viviam com os pés enfaixados. Com elas desaparecia não apenas uma tradição, mas o testemunho físico de uma ideia perigosa: a de que sofrimento pode ser confundido com beleza.
Essa imagem não fala sobre moda.
Não fala sobre estética.
Ela fala sobre controle.
Sobre normas sociais impostas.
Sobre corpos moldados à força para caber em um ideal.