A Europa já está a arder?
Não se prevê um futuro em que uma civilização gravemente doente se cure pelo voto. Aliás, nem se prevê cura nenhuma mas, dado que a violência puxa violência, múltiplos fragmentos de guerras civis
Não contem comigo para criticar a demora das televisões portuguesas em
referir, ainda que ao de leve, a balbúrdia que assola a França há semanas.
Percebo sem dificuldade que, nos últimos anos, décadas ou quiçá séculos, seja
quase impossível distinguir os períodos em que a França se encontra em estado
de sítio dos períodos restantes, que são aqueles em que a França se encontra na
mesma em estado de sítio mas com uma quantidade diária de actos de vandalismo
ligeiramente inferior à média nacional.
Desta vez, e também sem grande surpresa, os protestos são da variante
“estudantil”. Em Setembro, os alunos de um liceu suburbano em Créteil decidiram
que as turmas tinham excesso de gente, que havia falta de docentes e que o
mobiliário escolar exibia sinais de degradação. Para quem, como eu e o
português comum, frequentou “secundárias” públicas tão luxuosas quanto o
“lounge” Chase Sapphire do aeroporto LaGuardia, estes relatos da miséria causam
um nó na garganta. Por isso não admira que, se os resmungos em Créteil foram
genericamente pacíficos, num ápice centenas de milhares de “estudantes”
franceses concordassem necessitar de melhores condições de aprendizagem e
desatassem a demolir e a incendiar a propriedade alheia que lhes bloqueava o
progresso académico. A sede de conhecimento daqueles miúdos comove. Os mais
ousados nas reivindicações pedagógicas agrediram polícias, pegaram fogo a um
bombeiro e lançaram ácido no rosto de uma idosa que não apreciou a prossecução
de um bonito “graffiti”. Cada episódio foi filmado por bandos de colegas que
empunhavam telemóveis na vertical e riam muito.
Do pouco que espreitei, as nossas televisões teimam em comparar os
protestos em curso com os de Maio de 1968. Não faço ideia se as reportagens
notaram a actualização, em 2026, do slogan de então (“Sous le pavés, la plage”
– sob o asfalto, a praia): “Sous les cahiers, la rage” – sob os cadernos, a
fúria (“Atrás do telemóvel, um selvagem” seria igualmente uma alternativa).
Suponho que os “media”, que por regra tratam a barbárie “revolucionária” com
bonomia ou entusiasmo, não tenham explorado a analogia a fundo. À semelhança de
1968, a extrema-esquerda continua parte activa na baderna, hoje com o partido
França Insubmissa a instigar o caos e o seu líder, o sr. Mélenchon, a procurar
sair do caos como líder do país ou, no mínimo, da oposição global à sra. Le
Pen. A diferença face a 1968 é a curiosa aliança da extrema-esquerda com o
jihadismo islâmico, favorecido pela demografia local e, no caso, traduzido na
abundância de “estudantes” franceses chamados Mohamed ou Amir. Além de
empunharem cartazes contra a violência em Gaza enquanto atacam polícias em
Paris, a partilha de lenços keffiyeh e
bandeiras da Palestina entre os manifestantes muçulmanos e os restantes celebra
uma união que, um dia, talvez termine a celebrar as tradições humanistas, e
assaz francesas, da perseguição dos dissidentes e da guilhotina. Um dia.
Para já, a França é apenas um posto avançado do desprendimento suicida que
o Ocidente resolveu acarinhar. O que acontece por lá antecipa, com particular
presciência, aquilo que, não tarda, acontecerá na Alemanha e na Suécia, no
Reino Unido e na Holanda e na Bélgica. Até na periferia do continente o
fantasma do Bloco de Esquerda surgiu a convocar protestos e rebaldaria. No meio
da sua incontrolável verborreia, anteontem o sr. Trump tentou resumir a
situação: “O que se passa em França é somente o resultado da imigração
descontrolada. Isto não é sobre escolas, mas sobre o Islão querer conquistar um
país outrora grandioso!” Se descontarmos a discutível “grandeza” passada da
França, adicionarmos a influência da esquerda radical e espalharmos o caldo
pela Europa fora, o resumo é razoável. À conta da “tolerância” e da debilidade,
as brechas que o continente abriu são bem maiores que as próprias fronteiras, e
por elas entraram não só milhões e milhões de representantes de uma cultura
hostil: entrou na cabeça de inúmeros “activistas” profissionais e totalitários
inatos a noção de que o ambiente se tornara propício à devastação que sempre
ambicionaram. A noção estava correcta.
Outro americano, Marco Rubio, ecoou esta semana em Atenas o discurso de
J.D. Vance há um ano e tal em Munique: ou a Europa desperta para defender os
respectivos “valores” fundacionais ou os “valores” dissipam-se e a Europa, a
Europa que conhecemos, dissipa-se com eles. Por diplomacia ou convicção, Rubio
exagerou no optimismo. De que maneira é que se resolvem os problemas com que
voluntariamente a Europa se consome? Para uma parcela dos eleitorados,
resolvem-se através da concessão do poder à direita, que o mainstream político e jornalístico designa por
“extrema-direita” e cujo advento consideram a única consequência preocupante
dos “excessos” [sic] da extrema-esquerda, que o mainstream político
e jornalístico designa por “esquerda”. Há aqui alguns equívocos.
Acima de tudo, o que assusta, ou devia assustar, nos “excessos” da
extrema-esquerda (e do fervor islâmico) não é o embalo que isso concede aos
movimentos ditos “fascistas”: são os “excessos” da extrema-esquerda (e do
fervor islâmico). A ascensão eleitoral de forças menos amigas do
“multiculturalismo” é consequência secundária e natural da incapacidade do
“centro”, actualmente um vespeiro de oportunistas e irresponsáveis, em garantir
um esboço de equilíbrio e sossego nas respectivas nações. A chatice é que, no
mundo que temos, os ditos “fascistas” são institucionais e ascendem ou prometem
ascender ao mando pela via democrática. E à “democrática” extrema-esquerda,
excluída da simpatia popular e numa relação instrumental com migrantes
“inadaptados” e organizações terroristas, sobra a rua, onde pratica a violência
que, para não destoar na geografia, é a sua raison d’être.
Em suma, não se prevê um futuro em que uma civilização gravemente doente se
cure pelo voto. Aliás, nem se prevê cura nenhuma mas, dado que a violência puxa
violência, múltiplos fragmentos de guerras civis ou a abdicação definitiva. Não
é um futuro promissor, se é que chega a ser um futuro.
observador.pt 10 out. 2026
Artigo memorável da Chantal Delsol no Le Figaro de 07/10/2026:
**Os alunos do ensino secundário são vítimas da mentira igualitária da escola**
«Os alunos do ensino secundário do Maio de 68, imbuídos das tolices de Mao ou Trotsky, estavam convencidos de estar a construir a felicidade pura e simples ou “os amanhãs que cantam”, mas eram também fruto da escola republicana. E, como tal, possuíam muitas palavras (demasiadas?), recitavam de cor Aragon e Lenine (Ah! Materialismo e empiriocriticismo!). (…)
Os alunos do ensino secundário de hoje enfrentam uma mentira bem diferente, a de Bourdieu, mais recente mas na mesma linha, que já não procura a igualdade perfeita através da subversão das instituições, mas sim através da destruição da cultura. O nível de cultura gera desigualdades. A exigência que a escola republicana demonstrava para com os alunos significava a crença no valor do mérito - produzia um Camus através da aprendizagem árdua e da apropriação da cultura. Na escola bourdieusiana, o mérito, por ser ainda desigualitário, deve ele próprio ser excluído. Assim, a ignorância espalha-se.
No primeiro dia dos acontecimentos actuais, os alunos do ensino secundário, empenhados em expulsar um jornalista de quem não gostavam, só encontraram para lhe dizer «Vai-te foder» e «Filho da p...». É o vocabulário do ciclope de Homero.
A escola bourdieusiana já não produz Camus, filho de uma analfabeta; produz diretamente analfabetos, em nome da igualdade. E os alunos do ensino secundário alinham-se por trás dessa bandeira, em nome da igualdade. Em suma, serviram-se mentiras aos alunos do ensino secundário, tanto no passado como hoje.
Mas a mentira de hoje, que não passa de uma herdeira da primeira, é, no entanto, muito mais grave, porque os atinge logo no início, está no cerne da questão e começa na escola primária. Por essa razão, causa danos irreparáveis: quando se privilegia a ignorância desde o início (basta, por ideologia, não exigir qualquer esforço da criança), torna-se quase impossível reparar, porque os danos estão já causados na idade em que tudo se decide. (…)
A mentira bourdieusiana consiste em dizer isto à criança: a obtenção de lugares com base no mérito é uma injustiça. A justiça exige que todos pertençam à elite (viremos um pouco o mundo de cabeça para baixo, fica bem, a vida é tão triste). Portanto, todos serão aprovados nos exames - do bacharelato até ao mestrado. É isso que é a justiça, e é isso que é o futuro; caso contrário, “há violências legítimas”.
A mentira em questão está tão disseminada que invadiu a publicidade: “todos temos direito ao melhor, ao melhor preço”.
Não nos apercebemos de que, se o melhor está em todo o lado, o melhor já não existe; que, se todos são a elite, já não há elite. Ou melhor, apercebemo-nos disso e sabemos bem o que isso significa: uma sociedade completamente igualitária, a dos sonhos socialistas que acabam em Cuba, na Coreia do Norte, na Venezuela (regime que, precisamente, Jean-Luc Mélanchon tanto aprecia).
Em vez de serem incentivados e obrigados a trabalhar, os alunos do ensino secundário de 2026 são constantemente vitimizados. São vitimizados porque sofrem com as catástrofes climáticas, porque viveram os confinamentos, porque as suas escolas carecem de recursos, como se as gerações anteriores não tivessem, cada uma, vivido os seus problemas e os seus dramas, na maioria das vezes muito mais trágicos. São vitimizados por serem «pertencentes a minorias étnicas», como se a França não fosse o país que concede mais subsídios e serviços gratuitos (saúde, educação) a todos os níveis e a todos os seus cidadãos, mesmo aos que estão em situação irregular. (…)
Os alunos do ensino secundário do Maio de 68 eram ingénuos, mas não eram vítimas (tinham toda a cultura necessária para não caírem nas armadilhas enganosas da ideologia, o que, no entanto, aconteceu). Os alunos do ensino secundário de hoje não têm esse beneficio da dúvida, não são ingénuos: caem nas armadilhas ideológicas porque não têm palavras, e um espírito sem palavras deixa-se engolir pelo primeiro tubarão que aparece.
São vítimas porque não há nem a vontade (por parte dos ideólogos) nem a coragem (por parte da maioria dos outros, impressionados pelos ideólogos) de demonstrar exigência para os formar, o que a palavra “aluno” transmite. (...)
Vejo um cartaz numa manifestação de terça-feira: «Não queremos passar a vida a ganhá-la», que, por si só, descreve a dimensão da ilusão com que foram embalados por vigaristas de promessas.
Hoje em dia, os defensores institucionais do movimento - a LFI e os seus apoiantes - assemelham-se mais a Mao do que a qualquer outra figura do passado. Mao atiçava as brasas da Revolução Cultural, apelando a “um grande caos sob o céu” para “extrair do grande caos uma ordem suprema” (admiremos o génio inventivo! Um pensamento respeitoso e admirativo para Yang Jisheng e a sua monumental história da Revolução Cultural, “Virar o Céu e a Terra”).
Era preciso destruir tudo o que restava de desigual no mundo antigo. Aí onde a realidade resiste à vontade igualitária, é preciso destruí-la. (…)
Os grupos de alunos fanatizados começam por atear fogo às lixeiras e, em seguida, aproximam-se dos professores e, em vez de falar com eles (não têm palavras! Nunca nos esqueçamos disso), espancam-nos ou atiram-lhes gasolina. “Têm razão, o que fazem é poderoso”, afirma Jean-Luc Mélenchon.
Tudo o que se opõe à mentira igualitária é marcado pela infâmia, e nunca se ouviram tantas vozes a exigir a proibição das escolas privadas, ainda capazes dessa virtude esquecida pelos educadores: a exigência.
Eliminar o que funciona para que, por comparação, não se perceba o desastre do sistema vigente: é a única solução que resta ao charlatão perseguido.»
Those silly “students” are now rioting in Belgium too. Who knew that school conditions were this bad across so many EU countries that also recently experienced mass immigration. 
Aqueles "estudantes" insensatos estão agora também a promover tumultos na Bélgica. Quem diria que as condições escolares eram tão más em tantos países da UE que também viveram imigração em massa recentemente?
Brussels alone has only 21.5% of its population that are Belgian.
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