Mundo da Informação

sábado, 4 de abril de 2026

A Automatização e os perigos para a Civilização



Hoje fui ao Leroy Merlin de Cascais.

E aquilo que lá vi e vivi é simplesmente inaceitável.
Não havia uma única caixa com atendimento humano.
Nem uma.
Repito: nem uma única pessoa a fazer o trabalho para o qual a empresa supostamente existe e cobra.
Todos os clientes eram obrigados a fazer, eles próprios, o trabalho de caixa nas máquinas automáticas.
Ou seja:
👉 escolhemos os produtos
👉 passamos os artigos
👉 registamos a compra
👉 cobramos a nós próprios
👉 pagamos
👉 e no fim ainda temos de aceitar ser fiscalizados
Isto já não é atendimento ao público.
Isto é uma empresa milionária a transformar clientes em trabalhadores gratuitos.
E o mais revoltante é que, enquanto não havia ninguém para atender os clientes nas caixas, havia 3 funcionários do Leroy Merlin - para além do segurança - apenas a vigiar os clientes enquanto faziam o trabalho da loja.
Percebem o nível de descaramento?
Não há pessoas para atender.
Mas há pessoas para controlar.
Não há caixas com funcionários.
Mas há fiscalização para garantir que o cliente, que já fez o trabalho todo, não roubou nada.
ISTO É UMA VERGONHA.
E digo-o com todas as letras: é um atentado à dignidade dos clientes.
Isto não é modernidade.
Isto não é evolução.
Isto não é eficiência.
Isto é exploração.
É a normalização de uma lógica nojenta: cortar pessoal, transferir funções para o cliente e, no fim, ainda tratá-lo como suspeito.
EU NÃO ACEITO ISTO.
Só não deixei imediatamente as compras na caixa e saí porta fora porque estava com a minha esposa Ana Vasconcelos, e naturalmente respeitei a vontade dela. Mas se eu estivesse sozinho, era exactamente isso que teria feito. Largava tudo e vinha-me embora.
Mas depois do que aconteceu hoje, há uma coisa que fica decidida cá em casa: nem eu, nem a Ana, voltaremos a aceitar isto.
Nem no Leroy Merlin.
Nem em supermercado nenhum.
Nem em loja nenhuma.
Sempre que não existir uma única caixa com atendimento humano, deixamos as compras e vimos embora.
Sem discussão.
Sem negociação.
Sem colaborar.
Porque o cliente não é funcionário.
O cliente não é caixa.
O cliente não tem de trabalhar de borla para aumentar margens de lucro de empresas que faturam milhões.
E se ainda por cima, depois de fazer esse trabalho, o cliente é fiscalizado como potencial ladrão… então a situação já ultrapassou o ridículo e entrou directamente no campo da falta de respeito.
Reclamei.
E ouvi de uma funcionária algo que diz muito sobre o estado a que isto chegou: “Nem vale a pena reclamar, porque ainda há-de ser pior.”
Pois eu digo exactamente o contrário.
Só será pior se as pessoas se calarem. Só será pior se os clientes aceitarem isto de cabeça baixa. Só será pior se continuarmos a colaborar com a nossa própria humilhação.
Por isso deixo aqui um apelo muito claro:
Se forem a uma loja e não houver uma única caixa com atendimento humano, façam o favor de não alinhar.
Deixem as compras e venham-se embora.
É simples.
Se continuarmos a aceitar tudo, eles vão continuar a fazer tudo.
Mas no dia em que milhares de pessoas começarem a virar costas a este tipo de abuso, garanto-vos uma coisa: no dia seguinte aparecem caixas abertas e funcionários suficientes.
Isto não se resolve com resignação.
Resolve-se com reacção.
Eu recuso-me a aceitar este modelo de comércio sem rosto, sem respeito e sem vergonha.
E sinceramente, acho que ninguém o devia aceitar.
(P#158|2026)

José de Melo    30/3/2026   






Sem comentários:

Enviar um comentário