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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Professores em risco: salários baixos, excesso de trabalho e pais que não apoiam

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O Engenheiro também ensina o Médico a operar?


Há uma cena que se repete com demasiada frequência nas escolas portuguesas. Chega um encarregado de educação ao gabinete do professor, senta-se, e começa a explicar como é que o docente deveria conduzir a sua aula, que metodologia usar, como avaliar, quando repetir conteúdos. Fala com a convicção de quem domina o assunto. Não domina. Opina sobre pedagogia como quem opina sobre futebol ao domingo, com paixão, mas sem conhecimento técnico.

Seria impensável um professor entrar num escritório de engenharia e dizer ao engenheiro que o cálculo estrutural está errado, que a resistência dos materiais deveria ser abordada de outra forma. Seria risível um docente de Português ir ao consultório médico e explicar ao clínico que o diagnóstico está equivocado e que a terapêutica deveria ser outra. Mas na Educação, por razões que me escapam, todos se sentem especialistas.

Os professores em Portugal são, hoje, dos profissionais mais qualificados do país. Desde 2007, com a implementação do Processo de Bolonha, a habilitação profissional para a docência exige a conclusão de um mestrado em ensino. Não basta uma licenciatura na área científica, é necessário um segundo ciclo de estudos que inclui formação pedagógica, didática específica, psicologia do desenvolvimento e psicologia educacional. São cinco anos de formação superior, no mínimo.

Os dados do relatório do Estado da Educação 2024, divulgado pelo Conselho Nacional de Educação, traçam um retrato claro da realidade atual. Portugal possui um corpo docente experiente e resiliente, onde 60% dos profissionais da educação básica e secundária têm 50 ou mais anos. É um capital de experiência acumulada que sustenta a escola pública, reforçado por um elevado compromisso profissional: 94% dos professores manifestam estar satisfeitos com a sua profissão, um valor superior à média da OCDE. Contudo, o sistema enfrenta o desafio premente da renovação geracional, estimando-se a necessidade de recrutar cerca de 3 800 novos docentes por ano até 2035 para colmatar as aposentações.

Quando um pai vem explicar a um professor como deve ensinar, está a desconsiderar anos de formação em ciências da educação e décadas de experiência prática. Está a ignorar que aquele profissional estudou teorias da aprendizagem, modelos de desenvolvimento cognitivo, estratégias de diferenciação pedagógica, metodologias de avaliação formativa. Está, em suma, a tratar como opinião aquilo que é conhecimento científico.

Não defendo, entenda-se, uma escola fechada sobre si mesma. Pelo contrário. Os pais são parceiros fundamentais no processo educativo. A investigação mostra, aliás, que o envolvimento parental está correlacionado com melhores resultados académicos. Mas envolvimento parental não significa intromissão pedagógica. São coisas distintas.

Os pais conhecem os filhos como ninguém. Sabem das suas fragilidades, dos seus medos, das suas circunstâncias familiares. Esta informação é preciosa e deve ser partilhada com a escola. Da mesma forma, os pais podem e devem acompanhar o percurso escolar dos educandos, estar atentos aos sinais de dificuldade, criar em casa um ambiente propício ao estudo. Este é o seu papel. É um papel insubstituível.

Mas quando um engenheiro civil vem à escola dizer ao professor de Matemática que a abordagem ao cálculo está errada, ou quando uma advogada vem explicar à professora de Português que a interpretação do texto é questionável, estamos perante uma confusão de papéis que prejudica todos, sobretudo os alunos.

O problema agrava-se quando esta atitude se generaliza e se institucionaliza. Assistimos, cada vez mais, a encarregados de educação que contestam avaliações, que exigem alterações a classificações, que questionam decisões pedagógicas tomadas em conselho de turma. Fazem-no, muitas vezes, sem conhecer os critérios de avaliação, sem dominar os documentos estruturantes, sem entender os princípios que regem a avaliação das aprendizagens.

A formação de um professor não é um acidente burocrático. Quando um docente decide reprovar um aluno, ou quando escolhe determinada estratégia para abordar um conteúdo, fá-lo sustentado em conhecimento profissional. Pode errar? Claro que pode. Mas o erro de um profissional qualificado corrige-se com escrutínio profissional, não com a opinião leiga de quem, por muito boa vontade que tenha, não domina a matéria.

Há aqui uma questão de dignidade profissional que não pode continuar a ser ignorada. Os professores portugueses, além de altamente qualificados, enfrentam condições de trabalho cada vez mais adversas. Turmas numerosas, burocracia crescente e a instabilidade no vínculo laboral, que afeta ainda uma parte significativa dos profissionais, apesar dos esforços recentes de vinculação, são realidades diárias. Acrescentar a isto a necessidade de justificar permanentemente as suas decisões perante encarregados de educação que se consideram especialistas em pedagogia é um peso que ninguém deveria ter de carregar.

Que fique claro. Nada disto significa que os professores sejam infalíveis ou que as suas decisões não possam ser questionadas. Significa apenas que esse questionamento deve ser feito nos fóruns adequados e por quem tenha legitimidade para o fazer. Um pai pode discordar de uma avaliação e pedir esclarecimentos. Pode apresentar uma reclamação formal se considerar que houve injustiça. Pode recorrer às instâncias próprias. O que não pode é substituir-se ao professor na decisão pedagógica, como não se substitui ao médico no diagnóstico ou ao advogado na estratégia processual.

A escola precisa dos pais. Precisa deles como aliados, como parceiros no difícil trabalho de educar. Precisa que acompanhem os trabalhos de casa, que incutam hábitos de estudo, que transmitam valores de respeito pela instituição escolar. Precisa que compareçam às reuniões, que participem nas atividades, que colaborem com os professores quando há problemas de comportamento ou de aprendizagem.

Mas precisa também que aceitem que há uma fronteira entre o seu papel e o papel dos docentes. Uma fronteira que não diminui a importância dos pais, pelo contrário, clarifica-a. Um pai que compreende o seu papel de parceiro educativo é muito mais útil do que um pai que se imagina especialista em didática.

Os professores estudaram para fazer o que fazem. Quando um encarregado de educação lhes diz como devem ensinar, não está a contribuir para a educação do seu filho. Está a minar a autoridade de quem tem a responsabilidade de o formar. E isso, a prazo, prejudica toda a gente, a começar pelo aluno.

https://cnnportugal.iol.pt/  5/2/2026


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