A ARTE DE CULPAR PORTUGAL
Segundo o Presidente deposto da Guiné-Bissau, Portugal será o responsável por o país ter evoluído para um Estado falhado, com traços de narco-Estado.
Segundo o Presidente angolano, Portugal deverá igualmente carregar a culpa de Angola ser hoje uma cleptocracia incapaz de concretizar o seu imenso potencial.
E, segundo uma jornalista brasileira, numa exposição curiosamente financiada de forma masoquista pela Gulbenkian, “o que os homens portugueses começaram a fazer aqui, tão logo colocaram as suas botas e seus corpos infectados no ventre de areia das praias, seus pénis sifilíticos nas vaginas das mulheres originárias, foi construir ruínas”. Ou seja: também seríamos culpados pela tragédia brasileira.
Na Psicologia existe uma área denominada atribuição causal, que estuda as explicações a que recorremos para justificar o que nos acontece. Uma das conclusões mais sólidas é simples: quem atribui os seus fracassos a forças externas e incontroláveis, como o aluno que justifica as más notas com o azar ou com a suposta perseguição do professor, tende a não alterar comportamentos. Logo, permanece preso ao mesmo padrão de insucesso.
Pelo contrário, quem reconhece causas internas e controláveis ajusta o seu comportamento e, com isso, aumenta significativamente a probabilidade de melhorar.
Com os países passa-se exatamente o mesmo. Os que assumem responsabilidades e olham para dentro tendem a evoluir. Os que passam décadas a fabricar bodes expiatórios permanecem amarrados ao imobilismo.
Não é coincidência que os Estados Unidos sejam um dos poucos países que não gastam energia a culpar o colonizador pela sua condição atual.
Eu, que tenho genuína estima pelo espaço lusófono, e que, por isso mesmo, desejo que cada um desses países realize plenamente o seu potencial, gostaria de ver menos ressentimento e mais responsabilidade. Menos narrativas de desculpabilização e mais vontade de assumir o próprio destino.
Porque não é fabricando desculpas, nem alimentando mágoas e ressentimentos, que se constrói futuro.

Sem comentários:
Enviar um comentário