quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Presidente do hospital Amadora-Sintra: "Há pessoas que chegam ao aeroporto e vêm para aqui" (Turismo de Saúde)

A responsável explica que 40% dos utentes da área da obstetrícia são estrangeiros e admite que o turismo de saúde "é um problema". Sandra Cavaca tem um plano para atacar o inverno.



O hospital Amadora-Sintra voltou a estar debaixo dos holofotes nas últimas semanas devido aos elevados tempos de espera dos doentes que se deslocaram às urgências de uma das unidades de saúde mais pressionadas em todo o país. Os tempos de espera estiveram a rondar as 24 horas, mas o Observador contava recentemente a história de “João”, um doente de 70 anos que passou 36 horas naquele serviço desde o momento em que ali chegou, ao início da tarde de sábado, transportado pelos bombeiros, até ter recebido a alta clínica, já na madrugada de segunda-feira.

 

Em entrevista ao Observador, a presidente do Conselho de Administração, que assumiu funções há cerca de seis meses, reconhece que os atuais tempos de espera “não são aceitáveis”. Sandra Cavaca explica que o hospital foi perdendo clínicos das urgências e que não tem sido possível repor esses profissionais. E estuda, neste momento, a possibilidade de criar um Centro de Responsabilidade Integrada — no fundo, um modelo de funcionamento com incentivos financeiros para os profissionais de saúde que permita colmatar os baixos níveis de atratividade que têm dificultado o reforço — ou, sequer, a reposição — de recursos humanos.

 

Sandra Cavaca tem em mente outras soluções para reduzir a pressão sobre o Amadora-Sintra: um Centro de Atendimento Clínico na Amadora, com consultas marcadas para o próprio dia, a abrir em outubro; gabinetes de teleconsulta para utentes sem médico; e o reforço, a curto prazo, da urgência do hospital de Sintra, em Algueirão Mem-Martins.

 

Mas, ao mesmo tempo, a presidente do Conselho de Administração do Amadora-Sintra não esconde que há fatores externos que aumentam ainda mais a pressão sobre o hospital. Criado para servir uma população de 300 mil pessoas, o Fernando Fonseca responde atualmente a uma população que é cerca do dobro da que foi apontada como limite há quase 30 anos.


Em grande parte, essa pressão sobre o hospital resulta da procura das urgências por parte de uma população que não tem médico de família atribuído (cerca de 200 mil pessoas) e que vê nos serviços de urgência uma porta de entrada para o acesso a cuidados de saúde. “A pressão é grande e a imigração tem um papel importante”, aponta Sandra Cavaca, que recorre a uma imagem ilustrativa do dia a dia naqueles serviços: “No hospital, comunica-se muito através do Google Tradutor.”

(...)

A urgência do hospital Amadora-Sintra acaba por ser, muitas vezes, a porta de entrada de muitos utentes, uma vez que um terço da população abrangida pela ULS Amadora-Sintra não tem médico. São cerca de 200 mil pessoas. O atual Conselho de Administração tem um plano para mitigar esta situação?

Sim, temos cerca de 200 mil pessoas sem médico. Temos a descoberto centros de saúde muito difíceis: Agualva, Olival, Mira-Sintra, Monte Abraão, São João das Lampas, Algueirão Mem-Martins. É aqui que existe maior concentração de pessoas sem médico de família. Estas unidades têm enfermeiros, mas não têm médicos. E o que estamos a fazer? Vamos criar seis gabinetes de teleconsulta, com especialistas em Medicina Geral e Familiar, para dar algum tipo de resposta a estas pessoas. Temos obrigação de lhes dar cuidados.

“O défice de camas é muito elevado. Andamos sempre num sufoco”

Voltemos à realidade hospitalar. Sabe-se que o hospital Amadora-Sintra está subdimensionado, nomeadamente no que diz respeito ao internamento. Quantas camas é que faltam à ULS neste momento?

Precisávamos de mais umas 100 camas. Nós temos 0,8 camas por 1000 habitantes. A média nacional é 3,7 camas por mil habitantes. Estamos muito abaixo. Temos que ter uma rotação elevada de altas, porque quanto mais depressa dermos as altas, melhor. Temos feito um esforço neste sentido, porque senão já tínhamos colapsado. O défice de camas é muito elevado. Andamos sempre num sufoco, não conseguimos internar, temos macas nos corredores.

(...)

40% dos utentes da área da obstetrícia da ULS Amadora-Sintra são estrangeiros

Está no cargo há seis meses. Sente que a pressão sobre a ULS continua a aumentar? E relaciona isso com o aumento da população migrante?

A pressão é grande e a imigração tem um papel importante. Na obstetrícia, a maior parte dos nossos nascimentos são de pessoas estrangeiras. Temos utentes de 150 nacionalidades.

 

Que percentagem de utentes da ULS são estrangeiros?

Penso que será à volta de 40%. [A percentagem global é de 18%, informou depois a ULS Amadora-Sintra, sendo que aumenta para os 40% na área da obstetrícia]

 

Há outro fenómeno que tem vindo a agravar-se nos últimos anos, que é o chamado turismo de saúde, ou seja, pessoas que vêm a Portugal só para acederem a cuidados de saúde. É um problema para esta ULS?

É difícil. As pessoas vêm e não podemos negar assistência a ninguém. Há muitas pessoas que chegam ao aeroporto e vêm para aqui. Já têm familiares na zona e vêm. É um problema. Vem muita gente à urgência, muitas pessoas vão aos cuidados primários. As pessoas sabem que basta esperarem 90 dias e podem ter acesso aos cuidados primários. E acredito que não seja só aqui. Nesta ULS nota-se muito porque aqui à volta a imigração é muita. Aliás, no hospital comunica-se muito através do Google Tradutor. Muitas pessoas não falam inglês. Isso é também muito exigente para os profissionais, e temos bons profissionais, resilientes. É muito improviso, mas funciona. Sei que a Constituição diz que temos de prestar cuidados. Mas, se formos a outros países — à Suíça, por exemplo, ou aos EUA —, se precisar de cuidados, tem de os pagar. Não há urgências em que não se paga. Nós prestamos os cuidados, somos obrigados a prestá-los, mas depois cobramos a quem? Sabemos a quem prestamos os cuidados, o problema é depois fazer o rastreamento e saber quem vai pagar. Se a pessoa não desconta… Portugal tem uma política diferente, e não estou a dizer que está errada.


"As pessoas vêm e não podemos negar assistência a ninguém. Há muitas pessoas que chegam ao aeroporto e vêm para aqui. Já têm familiares na zona e vêm"

Na Obstetrícia há pessoas que vêm propositadamente para acederem a cuidados e terem o parto no SNS?

Não tenho dúvidas. Vêm.


A Sandra Cavaca foi nomeada para gerir a ULS Amadora-Sintra, que é das mais complexas do país, mas não tem nenhuma experiência prévia em gestão hospitalar. Isso é um handicap [desvantagem]?

Não, acho que é até uma vantagem. Eu giro muito bem pessoas — é o meu ponto forte. Daquilo que me tenho apercebido, as pessoas não têm sido ouvidas neste hospital e, portanto, se não fizermos mudanças com as pessoas que cá temos, não fazemos nenhuma mudança. O ambiente na ULS melhorou nos últimos meses.


Jornal Observador, 13 set. 2026

https://observador.pt/especiais/presidente-do-amadora-sintra-ha-pessoas-que-chegam-ao-aeroporto-e-vem-para-aqui/?fbclid=IwY2xjawUYwkRwZG9mAWV4dG4DYWVtAjEwAGJyaWQRMGlISTVhbTZ1RmgyNlkxeVZzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEe2Qi7kr71rKOWogOl4kjpkdTK7GC0QqncHHF99XrwPrvYKYSk49N5rbx4aro_aem_55QOEYTArZiY6LRzp8VQ1Q

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