Coagir professores por notas é aceitável? E não será causa de desânimo e abandono da profissão?
Há uns tempos, um colega contou-me uma história simples.
Uma divergência sobre redacção e correção de um teste (em que o professor tinha a razão científica do seu lado) levou a que uma mãe escrevesse um mail à DT da turma a exigir uma reunião para "esclarecer o professor"....
O professor (e bem) recusou "ser esclarecido" e exigiu ver o mail que não lhe queriam mostrar.
Penso que pondera reagir juridicamente ao texto ameaçador e ofensivo da sua competência profissional.
O problema é a pressão social das notas e a ideia de que existe um "direito ao sucesso", mesmo sem estudar e trabalhar.
A raiz são aqueles posts com as notas que certos pais exibirão "como obra da sua vida" nas redes sociais daqui a semanas ou as entrevistas laudatórias a alunos de "vinte a tudo" em televisões e jornais.
É a mentalidade de influencer na perceção de resultados escolares....
Sou ardente e ativo defensor do direito a estudar e aprender e a ter condições e meios para isso (numa tradição que continuo, nesta geração, com o meu irmão, e que vem de 4 gerações).
Mas não aceito que se foque tudo em notas artificiais e quadros de mérito e excelência vaidosos e exibicionistas.
Quando se atamanca o sistema para toda a gente ter 19, passa a ser "mérito" ter 20 e isso não pode ser assim tão difundido. E lá vêm conflitos pelo "mérito".
E até já há conflitos pelo dézinho ou trezito (no básico) a que "todos têm direito por aparecerem" o que gera pressões mesmo com alunos que nem o nome escrevem.
Acredito na cooperação com as famílias na vida escolar.
Mas o enfoque no termo "comunidade educativa", em detrimento de "percurso escolar" ou "vida escolar", leva a excessos de interferência que prejudicam a escola e as famílias. E mais ainda os alunos.
Quantos dos adultos, que hoje agridem pais velhos, não foram alunos que viram esses mesmos pais coagir e tentar pressionar professores a "dar a notinha, senão?"
Era um estudo sociológico engraçado....
Mas é preciso encarar o problema de frente.
As escolas e professores não podem cair reféns de pais que querem que se faça o seu papel educativo, que negligenciam, ou que, noutra face, querem notas e "excelência exibida" sem haver saber correspondentes.....
Notas não são prémio para exibir, são sinal de trabalho realmente feito.
E sinal transitório a confirmar em cada período e ano. Se coage quem as atribui, têm algum valor?
Acho que eram precisas algumas medidas com foco neste problema:
1. Mudar o sistema de gestão escolar e, para este caso, dar peso ao Conselho Pedagógico, como órgão com efetivo poder de controlo decisivo do que se passa nas escolas e na sua gestão.
2. Reforçar os mecanismos disciplinares dos alunos, com garantias dos direitos, mas com recursos atribuídos para castigar a tempo e prevenir antes de acontecer.
3. Reforçar as CPCJ para intervir junto dos pais desleixados ou abusadores e retirando-lhes a informalidade e lirismo dissolvente que por lá grassam.
4. Nos órgãos de representação geral das escolas (Conselho Geral ou equivalente) combater a captura de representação dos pais por grupos limitados, garantindo efetiva participação alargada de todos nas eleições, sem interferências políticas e com controle público da integridade dos atos eleitorais dos seus representantes. A maioria dos pais tem melhor atitude que alguns dos seus representantes (às vezes auto-designados).
5. Aplicar os mecanismos sancionatórios que já existem para abusos de pais e alunos.
6. Abolir quadros de mérito e de excelência. A excelência, se existir, é visível por si mesma nas notas que os professores atribuem e não é preciso pressionar com um mecanismo exterior de exibição, que gera conflitos e discussões. Os quadros de mérito são só vaidade e, por muito que seja alçada a valor nesta nossa sociedade, nunca foi virtude.
7. Verificar as efetivas condições legais e de representatividade de todas as associações de pais, evitando que alguns pais capturem a representação de todos (o que levaria à reforma dessa falácia chamada CONFAP).
8. Limitar o peso de elementos externos à escola (autarquias e sociedade civil, capturada também tantas vezes) na eleição da direção executiva (voltar a eleições alargadas, com professores e outros trabalhadores, a votarem diretamente num colégio alargado, junto com representantes de pais por cada turma, o sistema da lei de 1998 que Maria de Lurdes extinguiu ignobilmente).
9. Criar uma comissão de disciplina e conflitos em cada escola, eleita nesse colégio eleitoral para arbitrar conflitos. Uma espécie de provedor e juiz interno, isento e com prestígio interno entre pais e professores.
10. Reforçar os meios de segurança e aumentar penas e punição atempada para quem ameace, tente coagir ou agrida professores.
Participação dos pais não pode ser controle dos professores ou coação sobre a sua ação pedagógica e avaliativa livre.
Uma escola para a Democracia não pode ser coagida na sua ação principal: ensinar em Liberdade.
Acham que exagero? Vale a pena debater isto?
Luís Sottomaior Braga 17/5/2026
Há notícias que, mais do que informar, parecem ser um atentado ao bom senso!
A recente reportagem da SIC sobre a queixa apresentada por alguns pais contra uma professora, acusada de não permitir que os alunos vão à casa de banho durante as aulas, é um desses casos em que rapidamente se tenta construir um tribunal popular antes de se perceber o contexto.
Pessoas, desde logo, importa esclarecer uma coisa simples: não existe nenhuma lei específica, nem sequer o Estatuto do Aluno e Ética Escolar, que determine que os alunos podem entrar e sair da sala de aula sempre que lhes apetece ir ao WC.
Essas regras são normalmente definidas pelos regulamentos internos das escolas, sempre com margem para o indispensável bom senso, sobretudo em situações clínicas devidamente identificadas que devem ser comunicadas ao Diretor de Turma e que informa todo o Conselho de Turma.
Tanto quanto se sabe pela medicina moderna, a capacidade da bexiga pode esperar 45 ou 50 minutos e que devem usar os intervalos para essas necessidades e não esperar por estar em aula.
Ora, se existir um aluno com autismo (conforme referia a notícia) na turma cuja condição justifique necessidades específicas, isso é naturalmente tido em consideração. As turmas devem ser mais pequenas, mas é inevitável que um só professor nestas turmas, tem de dividir a sua atenção por todos os alunos de forma equitativa para que ninguém fique para trás, para que ninguém fique prejudicado.
A dislexia é uma perturbação específica da aprendizagem, de origem neurobiológica, que afeta a leitura, a escrita e a ortografia.
A hiperatividade são alunos agitados e défice de atenção, não justificam faltas de respeito.
Nenhum dos dois justifica o facilitismo e ajudas em tudo o que é a aprendizagem, não é verdade. O professor tem a liberdade de ajustar as cotações sem mudar as perguntas ou requisitos. Cabe aos alunos esforço e vontade em aprender e ultrapassar dificuldades, e fora da escola cabe aos encarregados de educação o reforço das aprendizagens. Convém não entrar no campeonato nacional do facilitismo mas exigir com adequação, pois no final do ano queremos que todos atinjam o sucesso por mérito e não por relatórios médicos.
Convém recordar que o professor continua responsável pela segurança dos alunos durante o período de aula. E qualquer docente sabe que, em certos casos, uma simples ida ao WC pode rapidamente transformar-se numa corrida pelos corredores, numa excursão improvisada ou num episódio de perturbação para outras turmas. A escola não é um centro comercial onde cada um circula livremente com um “já venho”.
Nenhum professor digno desse nome ignora questões de saúde ou necessidades educativas reais. Aliás, os próprios pais de vários alunos vieram a público defender a docente, descrevendo-a como uma profissional dedicada, atenciosa e cumpridora das medidas de diferenciação pedagógica previstas na lei. Curiosamente, esses testemunhos parecem ter menos destaque do que a indignação fabricada em horário nobre.
Parece existir hoje uma tendência perigosa para desautorizar os professores ao primeiro incómodo, como se exercer autoridade pedagógica fosse um abuso e impor regras mínimas de funcionamento fosse uma afronta aos direitos humanos.
Depois admiram-se dos problemas de indisciplina, da falta de respeito dentro e fora das salas de aula apoiados pelos encarregados de educação como que só existe-se uma única verdade - a dos alunos- descredibilizando o papel dos docentes que tantas vezes conhecem melhor os filhos que os próprios pais.
No meio desta polémica, talvez valha a pena ouvir quem convive diariamente com a professora e reconhece nela competência, dedicação e equilíbrio. Porque, às vezes, o problema não está em professores exigirem regras. Está numa sociedade que começa a achar que qualquer regra é uma violência, e está principalmente em alguns pais que em casa não conseguem impor regras e dar educação, mas acham que mandam na escola e que podem sobrepor-se ao Regulamento Interno. Tenham vergonha!
SPEAKER´S CORNER 17/5/2026
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