Segundo a imprensa espanhola, a queixa - apresentada pela associação que apoiou o pai de Noelia Castillo no processo contra a eutanásia - foi entregue na Secção de Investigação do Tribunal de Primeira Instância de Barcelona.
Na denúncia, a Associação Advogados Cristãos defendeu que a médica cometeu um crime de prevaricação e agiu apesar de haver "conflito de interesses", violando a "lei ao intervir no procedimento". Em causa está o facto de a médica ser coordenadora de transplantes.
"A própria médica redigiu à mão o pedido de eutanásia da paciente, incluindo como primeiro ponto o desejo de Noelia de ser doadora de órgãos", afirmou a associação, num comunicado citado pela televisão espanhola Telecinco.
"Para a Advogados Cristãos, este facto é particularmente grave, uma vez que não foi a doente quem o declarou, mas sim a própria médica que, além disso, exercia funções como coordenadora de transplantes", alegam.
Segundo Polonia Castellanos, presidente da fundação, "estamos perante um caso gravíssimo que põe em causa as garantias do sistema".
Sublinhando que a médica "atuava simultaneamente como coordenadora de transplantes no Consorci Sanitari Alt Penedès-Garraf e como médica responsável pelo processo de eutanásia", a associação defendeu que as duas funções geram "um conflito de interesses estrutural e insuperável", uma vez que "a mesma profissional que tinha de avaliar se a morte da doente era apropriada tinha um interesse institucional direto na obtenção de órgãos".
Noelia Castillo Ramos, nascida a 14 de novembro de 2000, foi eutanasiada na passada quinta-feira, após mais de 600 dias de espera, que incluíram uma batalha judicial contra o próprio pai.
A jovem, que ficou paraplégica após saltar do 5.º andar de um prédio numa tentativa de colocar termo à própria vida, recebeu autorização para ser eutanasiada em julho de 2024.
O seu pedido, explicou a imprensa espanhola, foi validado pela Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha, um comité independente que analisa e aprova cada pedido de morte assistida, seguindo todos os preceitos estabelecidos pela lei da eutanásia.
No entanto, os diversos recursos judiciais apresentados pelo seu próprio pai, representado pela fundação católica ultraconservadora, prolongaram a espera da jovem por mais de um ano e meio.
Dias antes de morrer, Noelia Castillo frisou, em entrevista ao canal espanhol Antena 3, que queria "ir em paz e deixar de sofrer".
A jovem frisou, ainda, que não era só o pai que estava contra a eutanásia. "Ninguém da minha família é a favor da eutanásia. Obviamente, porque sou outro pilar da família. Eu vou embora, mas eles ficam aqui com toda a dor. Mas eu penso: e eu, com toda a dor que sofri todos esses anos? Quero partir agora em paz e parar de sofrer, ponto final", refere.
Noelia referiu, também, que "a felicidade de um pai, de uma mãe ou de uma irmã", não pode ser "mais importante do que a vida de uma filha".
A jovem mostrou a mágoa e confusão que sente pelo pai, apontando que "não entende" por que razão o pai não a visita e que o familiar também já lhe disse que ela "ganhou." "Pai, isto não é um jogo. A mim também me dói", ter-lhe-á dito.
"Nunca me liga, nunca me manda mensagens. Para que é que me quer viva? Para ter-me no hospital?", questionou.
O parlamento espanhol aprovou em 2021 uma lei que despenaliza a eutanásia, tornando Espanha um dos raros países que permitem que doentes terminais recebam assistência para morrer, de forma a evitar "um sofrimento insuportável".
Desde a entrada em vigor da lei e até ao final de 2024, foram eutanasiadas 1.123 pessoas no país, segundo os últimos dados divulgados pelo Ministério da Saúde.
31/03/2026 ‧ POR MÁRCIA GUÍMARO RODRIGUES https://www.noticiasaominuto.com/mundo
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