O lançamento em Lisboa pela Fundação AIS do livro “Os Mártires do Novo Milénio”, de Robert Royal, trouxe a temática da perseguição aos Cristãos para a ordem do dia. O autor, norte-americano, alertou para a ameaça terrorista que paira em África sobre as comunidades cristãs, mas chamou também a atenção para outras realidades menos faladas, como a perseguição na China e os crimes de ódio cada vez mais frequentes na Europa. Os incêndios criminosos de edifícios religiosos em França são apenas um exemplo disso…
“França, que obviamente tem um problema islâmico devido à imigração, perde dois edifícios religiosos todos os meses por causa de incêndios. E isto acontece mesmo que o Governo francês tome medidas para tentar proteger esses edifícios. E, claro, há situações semelhantes que acontecem na Alemanha, na Itália, em Espanha. Rezo a Deus para que isso não aconteça com frequência aqui em Portugal”, disse Robert Royal em Lisboa, no Palácio da Independência, no passado dia 9, no lançamento do seu livro “Os Mártires do Novo Milénio”. A sessão, que contou com a participação do advogado Ribeiro e Castro, do editor Henrique Mota, e de Catarina Martins de Bettencourt, directora da Fundação AIS em Portugal, permitiu detalhar o que tem sido a perseguição global aos Cristãos neste séc. XXI. Este novo livro de Robert Royal é, de certa forma, a continuação de uma obra anterior, “Os Mártires Católicos do Séc. XX”, lançado por ocasião do Jubileu do ano 2000. Ambos os trabalhos são um auxiliar precioso para se compreender a perseguição aos Cristãos nos últimos anos. E isso foi sublinhado por Ribeiro e Castro, que é também presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, entidade que acolheu o evento. O antigo deputado fez a apresentação da obra começando por lembrar que já o séc. XX foi um imenso martírio. “Um único século, o séc. XX, pode ter produzido mais mártires do que os primeiros 19 séculos do Cristianismo juntos”, disse.
A perseguição no séc. XX foi sistemática e global
De facto, os 100 anos do séc. XX foram tempos de brutalidade, com regimes ideológicos muito poderosos, o nazismo, o comunismo, com polícias políticas, campos de trabalho, propaganda, perseguições sistemáticas… Uma realidade que, diz Ribeiro e Castro, não pode ficar silenciada. “Não é possível ignorar, não é possível esquecer. Como Robert Royal refere no livro, esta questão constitui um dos grandes dramas morais da história contemporânea. A obra demonstra que a perseguição aos Cristãos do séc. XX não foi episódica, mas sim sistemática, global e ideologicamente motivada”, afirma. E o novo milénio, que estamos a viver, mostra que este horror continua activo, continua a fazer vítimas, continua a espalhar o horror. Há mudanças na geografia da perseguição, mas a verdade é que continuam a morrer cristãos por causa da sua fé no séc. XXI. Perante tudo isto, Ribeiro e Castro afirma que é preciso agir. “Este livro de Robert Royal, tal como o anterior sobre o séc. XX, deve ser visto como um livro não só para servir de conhecimento, mas, sobretudo, para alimentar a acção. De nada nos serve ter conhecimento do mal se nada fizermos para lhe pôr fim. É tempo de agir.”, defende.
A ameaça crescente do Islão radical
A intervenção de Robert Royal na apresentação do seu livro ficou marcada por alguns exemplos do que tem sido, neste novo milénio, a perseguição aos Cristãos, tendo enfatizado a ameaça crescente do Islão radical, que nasceu da Irmandade Muçulmana, na década de 1950 e começou a espalhar-se pelo Médio Oriente. E lembrou Salman Rushdie, o romancista paquistanês-britânico alvo de uma ‘fatwa’ porque escreveu um livro que os Muçulmanos consideraram blasfemo e que, ainda há relativamente pouco tempo, foi apunhalado e perdeu um dos olhos quando estava a dar uma conferência em Nova Iorque. Pois, Salman Rushdie disse que a humanidade se despediu do séc. XX a pensar que tinha deixado para trás os tempos do totalitarismo, mas a verdade é que o mundo acordou no séc. XXI e descobriu o totalitarismo islâmico. “Assim, quando lêem, por exemplo, sobre as terríveis perseguições e muitas vezes o martírio de cristãos num país como a Nigéria, isso deve-se ao facto de grupos como o Boko Haram e outros estarem a tentar estabelecer um tipo de Califado”, explica o autor. E esta violência, perpetrada por grupos extremistas, tem vindo a estender-se por todo o continente. Mas há outros países que merecem atenção. Um deles é a China. “É uma situação muito delicada e esperamos que as negociações entre o Vaticano e Pequim produzam alguns bons frutos. Sabemos que há pelo menos 10 bispos católicos desaparecidos na China”, diz.
“Publicar este livro é fazer um apelo, um desafio”
A sessão de apresentação do livro contou também com a participação de Henrique Mota, o editor. No final, em declarações à Agência Ecclesia e à Fundação AIS, o responsável pela Lucerna disse que ter publicado o livro foi “um grito de alerta”. “Publicar este livro, no meu caso, não é divulgar mais uma obra literária, é divulgar um documento que faz um apelo e um desafio para que as pessoas possam conhecer a realidade e agir sobre essa realidade”. O livro de Robert Royal teve ontem ainda uma segunda sessão de apresentação ao princípio já da noite na Basílica da Estrela. Em plena igreja, depois da celebração da Eucaristia, e perante cerca de uma centena de pessoas, o Padre Duarte da Cunha lembrou que os mártires são exemplo para todos nós. “São homens e mulheres cristãos que têm uma fé forte e viva e que não lhes permite odiar, mas também não desistem da sua fé, não abjuram a sua fé, não a negam, mas, pelo contrário, afirmam-na, testemunham-na radicalmente.
Paulo Aido
https://agencia.ecclesia.pt/
O bispo de Pemba, em Moçambique, disse, este sábado, à agência Lusa que um grupo de supostos terroristas destruiu completamente a histórica paróquia de São Luís de Monfort e raptou civis, na quinta-feira, em Ancuabe, na província de Cabo Delgado.
"Depois de queimarem algumas casas, maioritariamente dos cristãos católicos e outros também cristãos não católicos, depois de vandalizarem o hospital [...], foram direto às infraestruturas que estão na paróquia de São Luís de Monfort de Minhoene e ali destruíram tudo. Queimaram a escola que está aí, queimaram a paróquia, a casa dos padres, a secretaria paroquial, a escolinha foi totalmente vandalizada", descreveu António Juliasse, a partir de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.
O ataque dos supostos rebeldes ocorreu na aldeia de Meza, no distrito de Ancuabe, por volta das 16h de quinta-feira, com os grupos a ocuparem a região até às 20h do mesmo dia, avançou o bispo, referindo que houve profanação dos lugares e dos objetos sagrados, numa "violência horrível" e que "provoca muita dor".
"[A paróquia] está completamente destruída. Eles queimaram tudo. Foi mesmo para destruir. É uma forma bárbara de fazer as coisas", acrescentou Juliasse. Na página da Diocese de Pemba na rede social Facebook foram publicadas algumas imagens da destruição
Segundo o bispo, não houve registo de feridos e mortos, mas mais de 20 pessoas foram raptadas, num movimento já previsto em Meza, após um ataque numa região próxima, o que levou "boa parte do povo da aldeia a fugir".
"Cerca de 22 pessoas foram capturadas e foram forçadas a ajudar a destruir, e depois fizeram reunião para espalhar mensagem de ódio contra os cristãos", disse, lamentando que não tenha havido nenhum socorro, apesar dos rumores que corriam na aldeia dois dias antes do ataque.
"Depois de eles atacarem uma zona perto daí, todos sabiam que iam para aqueles lados, mas não houve nenhuma intervenção. Fizeram toda a destruição em três, quatro horas, sem nenhum constrangimento do lado das nossas forças de segurança", acrescentou o bispo, referindo que "o povo se sente largado" e sem proteção, quando já passam quase "nove anos de guerra, nove anos de destruição e de mortes".
De acordo com dados avançados pelo representante religioso, pelo menos 300 católicos foram mortos, maioritariamente por decapitação, e mais de 117 unidades da igreja destruídas, desde o início do conflito armado em 2017.
"Basta eles entrarem numa aldeia. Sabemos que a infraestrutura da igreja não fica impune, não fica sem ser destruída [...]. Nós temos em Mocímboa da Praia tudo destruído, temos em Nangololo tudo destruído, que são as grandes e antigas igrejas históricas, estão destruídas. Agora destruíram esta igreja também histórica, esta missão histórica, e várias pequenas igrejas e capelas das comunidades cristãs", concluiu António Juliasse.
A província de Cabo Delgado, rica em gás, é alvo de ataques extremistas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 05 de outubro de 2017, no distrito de Mocímboa da Praia.
A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) estima que a província moçambicana de Cabo Delgado tenha registado 11 eventos violentos nas duas últimas semanas, 10 dos quais envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que fizeram nove mortos, elevando para 6.527 os óbitos desde 2017.
De acordo com o mais recente relatório da ACLED, com dados de 6 a 19 de abril, dos 2.356 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, 2.184 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM).
Agência Lusa 2/5/2026
David J Harris Jr. 2/5/2026